Mala
Mala
Quando um homem está perdido ele pensa em várias coisas, uma recorrente: voltar atrás. Apesar das sombras que se esgueiram em uma mente peruturbada, sussurrando mil alternativas desastrosas, a única coisa sensata é retroceder: não há tempo que apague a lembrança quando se está perdido, quando se está doente. Aliás, quando se está perdido a lembrança é como um farol na escuridão, indicando um porto seguro, terra firme. Quando não há o que lembrar nos foge o farol, nos foge a segurança, não há como retroceder. Cada lembrança nos aproxima de casa, e neste sentido “casa” também é uma metáfora para “si mesmo”, aquilo que somos em essencia, e que conserva o individual. Aquilo que somos e que devemos resgatar periodicamente para que não mudemos, ou nos percamos de nós mesmos. Assim, ao lembrar de um cheiro, lembramos de algo como o lar, o cabelo da mãe, o perfume da namorada, a pele do filho. Mas e quando não lembramos de nada? Resta apenas um cheiro, mas sem sentido.
Marco arrumava a mala, com um pouco de receio, um pouco de medo dos objetos que ali colocava e suas histórias desconhecidas: uma manta ocre surrada, com um furo. Ele encaixou seu dedo no buraco, balançando pra lá e pra cá. Mas não fazia idéia de como vira a furar o cachecol, nem ao menos de onde viera.
Assustador.
Colocou um par de meias ainda embaladas que comprara em uma liquidação, a etiqueta estava pendurada, com uma remarcação por cima da outra. Colocou na mala algumas roupas que ele desconhecia. Pôs a mão no bolso e encontrou um cartão e uma chave: “Hotel Colina do Vento, quarto 10”. Ele não lembrava exatamente nada.
Como pode um homem caminhar sem que as coisas pelo caminho lhe inundem a mente com lembranças? A todo momento quando caminhamos nosso cérebro não pára de registrar imagens, lugares, rostos, pessoas, sensações, cheiros, movimentos. Como pode um homem caminhar e não lembrar onde foi seu último passo? Como pode um homem, viver, sem saber onde foi seu último passo?
Alguém que não sabe estas coisas não sabe nada. Não sabe se está vivo ou se está morto. Vive de um futuro que desaparece.
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