Marco
Marco tocava a chave no bolso e lembrava sempre que aquela era a única coisa certa: um baú onde suas lembranças estavam guardadas, que deveria ser aberto, em tempo, para que talvez ele soubesse e não esquecesse, seu próximo passo.
Antes de colocar a bolsa nas costas Marco ainda atendeu o telefonema do médico que lhe recomendou ficar em casa.Nada fazia sentido. Este era o médico que tentava fazer com que desistisse de sair, o médico que ligou e um telefone tocou e Marco atendeu. Mas logo desligou o telefone e abriu novamente a sacola, colocou mais alguns objetos, olhou para dentro dela por um tempo. Colocou mais algumas coisas. Pôs a mão no bolso e tomou a chave novamente “É para lá que tenho de ir”, sentiu. Ele sabia, outra vez.
Ao passar pela porta pensou ver outro homem se mover tal qual ele próprio, e se não fosse a moldura até acharia realmente que era outro homem, pois não reconhecia aquele estranho no espelho.
Marco morava dentro daquele homem desconhecido, que perambulava por todos os lugares com bastante dinheiro no bolso, um cartão e uma chave, de barba mal feita, cabelos sem corte e olhar disparado. Não queria olhar para si. Tinha vergonha de ver alguém que não conhecia. Tinha vergonha do olhar desconhecido daquele alguém do espelho.
Destrancou a porta e saiu.
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