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Olhava para cima, do jeito que ninguém faz porque não tem tempo, do jeito que niguém faz porque ofende à vista. Ao abrir sua pálpebra amarela Marco pôde ver, antes de cegar, o incrível olho azul que o sol tem. Aquele olho azul, circundado de amarelo, que é a última coisa coisa que olhamos, quando se mira direta e fixamente o sol, depois tudo escurece. Aquele azul que olhamos quando criança, que a mãe diz que vai nos cegar, e cega.
Marco olhou o sol e cegou. Ficou zonzo de erguer a cabeça e forçar a nuca, permanecendo assim até que alguém esbarrasse nele. E de repente toda urbe atropelava o homem cego que lutava na correnteza contra os braços e contra a força dos corpos, todas aquelas pessoas se esbarrando, atropelando-se como gado sendo tocado. Como uma turba incontrolável as pessoas desenfreadas transitavam em um fluxo desorientado. Até que tudo instantâneamente cessou.
Quando recobrou a visão era açoitado por buzinas enlouquecidas e deparou-se com uma muralha de automóveis. Esperavam as porteiras abrirem para correr em direção ao desconhecido. Às suas costas uma sinaleira: um organismo de três olhos que comanda o fluxo nas veias das cidades.
Tratou de correr para a calçada. Lá, como uma cerca humana, as pessoas esperavam afoitas a hora de atravessar a rua. As pessoas se aglomeravam como uma manada irracional barradas por uma força invisível, uma porta, que ao se abrir tinha sua dimensão ocupada ferozmente e desenfreadamente pelos transeuntes. Logo uns atropelariam aos outros, rumo aos seus destinos desconhecidos. Marco assustado embrenhou-se em meio a todos até alcançar a praça.
Em um banco sentou-se e procurou a sombra tímida de um arbusto que se projetava sobre o concreto morno. Acima o sol lhe espiava com o olho majestoso e quente: o castigo maior de quem tem sede.
Sede.
Pôs a mão no bolso para procurar algum dinheiro e comprar água, porém notou que algo lhe machucou ao escorar-se, era uma sacola em suas costas. Encontrou dinheiro no bolso, uma chave com um cartão e uma passagem de ônibus, uma hora, uma poltrona, um destino.
Ainda sentia sede.
2 comentários:
Muito legal sua comparação do caos urbano com o abatimento de gado. Parabéns.
belo texto
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