Eva
-Eva, bota água no feijão e faz uma abóbora, tem visita pra janta!- gritou o anfitrião, nem bem saído da carroça. Na direção dele pelo menos três cães de variadas pelagens, ainda que todas elas com, pelo menos, alguma semelhança entre si, retorcian-se em festa. Uns maiores outros menores, mas muito idênticos. A casa ficava no alto de um barranco, às voltas de galinhas e porcos, uma vaca, um estábulo feito apenas de tapume e escoras, um galpão roto e, é claro, abóboras e melões para todos os lados.
Logo Eugênio acariciou os cães, que lhe festejaram até a entrada da casa. Acenava da porta dizendo ”Não te acanha, venha rapaz! Aqui a gente não morde!”, Marco foi galgando o barranco em direção a casa, muito humilde e diga-se de passagem pouco tratada. Notava-se: a calagem havia muito que não se retocava, as paredes encardidas pareciam ter sido pintadas de cinza até a meia altura, o telhado remexido pela intempérie esperava alguém que o socorresse, as aberturas de venezianas faltando pedaços, tábua sim, tábua não.
No entanto a casa estava limpa por dentro, era simpática, simples e aconchegante, ao contrário da anfitriã. “Eva, sisuda e mal educada” disse o velho. “Não deu nem 'oi' pro rapaz!”, retorquia o carroceiro. Cheirava a cachaça e tinha a tapar-lhe os cabelos, que pareciam cortados com facão, um boné promocional de fortificante para meia idade. Um pano de prato no ombro, um palheiro no canto da boca, vestia uma bermuda de fitness e uma camiseta surrada de um time de futebol desconhecido. A camiseta com um nó era presa na cintura e torcida para debaixo dos seios flácidos e suados. Aparentava uns cinquenta anos, mas era visto que possuía menos ,das pessoas que lidam na terra pode-se dizer que a idade é mais cruel com elas, envelhecem mais cedo da vida puxada e do trabalho contínuo na intempérie.
Eva não moveu a boca, exceto para soltar a fumaça do palheiro, enquanto um gato se esfregava em suas pernas miando. No canto da cozinha havia uma cortina, donde por horas se revelava uma criança tímida a espiar, com um bico na boca atado numa fralda. Dava um sorriso e logo se escondia na peça novamente.
-Já ordenhou alguma vez, rapaz?- perguntou o velho tomando um balde de assalto de trás da porta.
Marco deu de ombros e levantou as sobrancelhas franzindo o cenho.
-É mudo, Eva!- desdenhou Eugênio acotovelando a mulher-.
-É...- respondeu ela com o canto da boca, sem deixar seus afazeres.
-Vamos puxar as tetas da Eva então! Hein!- gracejou o anfitrião-, Da outra Eva, que também é vaca, mas mora no galpão !
-Puto!- ralhou a mulher, da piada grosseira, com ar jocoso.
Enquanto se afastavam da casa em direção ao estábulo ele podia sentir o cheiro bom que se desprendia da janela da cozinha, o cheiro da janta, algum refogado estalando apetitoso na caçarola, cheiro de cebola, de pimentão, de alho, de óleo, cheiro bom de comida.
A teta morna e dura espirrava a última ordenha do dia, a “ordenha da tardinha”, pouco a pouco ia lotando o balde de lata, enquanto o velho acariciava o úbere da vaca. Bem se sabe que não é qualquer um que consegue ordenhar a vaca, ela está acostumada às carícias de uma mesma mão, e é para ela que derrama seu precioso fruto.
-O leite ainda está crú e aqui se toma assim. Tem gente que tem nojo. Mas eu digo que se faz bem pro terneiro, faz bem pra mim. Se quiseres agora te agarra num copo e serve do balde. Se não és de fora já vais querer que a Eva ferva, aposto!
-Quantos litros aí se vão?- perguntou Marco.
-Depende, a esta hora tiro um litro ou quase isto. Pela manhã eu ordenho dois litros bem medidos. É das boas!-
Eugênio se dirigiu a um rapaz que descia o barranco à cavalo “André, uma cabeça, foi o que o sovina da fazendinha troca pela leva de melões, pelo fusca e pelo terneiro!”
-Noite!- dirigindo-se à Marco.
-Boa Noite!-respondeu.
-Este é um amigo que veio para jantar!- disse Eugênio.
-Vamos entrar, estou louco por um banho!- disse o rapaz atando o cavalo ao alpender.
Logo que adentraram, correu detrás da cortina a criança envergonhada e pulou nos braços de André. Logo se reconheceram pai e filho, como fazem os animais que cheiram aos filhotes para lhe tomarem como suas crias pela identidade do cheiro. Também seguiram com brincadeiras de cócegas e entraram pela cortina.
-Trata dele André, tem berne na bunda!- disse Eva, se esquivando do acido que espirrava da cebola que cortava.
Depois da janta o velho pegou um acordeon e tocou até alta noite. Fazia rimas engraçadas e puxava palmas dos ouvintes: Eva, Marco, André e sua mulher e filho. A crinaça, nestas alturas, já não tinha mais vergonha e dançava uma dança desengonçada que misturava socos, chutes e um sapateado de moda desconhecida. Todos riram muito e após um leite morno se recolheram.
Marco foi ter com o céu estrelado, ele estava feliz e o vento quente.
Logo Eugênio acariciou os cães, que lhe festejaram até a entrada da casa. Acenava da porta dizendo ”Não te acanha, venha rapaz! Aqui a gente não morde!”, Marco foi galgando o barranco em direção a casa, muito humilde e diga-se de passagem pouco tratada. Notava-se: a calagem havia muito que não se retocava, as paredes encardidas pareciam ter sido pintadas de cinza até a meia altura, o telhado remexido pela intempérie esperava alguém que o socorresse, as aberturas de venezianas faltando pedaços, tábua sim, tábua não.
No entanto a casa estava limpa por dentro, era simpática, simples e aconchegante, ao contrário da anfitriã. “Eva, sisuda e mal educada” disse o velho. “Não deu nem 'oi' pro rapaz!”, retorquia o carroceiro. Cheirava a cachaça e tinha a tapar-lhe os cabelos, que pareciam cortados com facão, um boné promocional de fortificante para meia idade. Um pano de prato no ombro, um palheiro no canto da boca, vestia uma bermuda de fitness e uma camiseta surrada de um time de futebol desconhecido. A camiseta com um nó era presa na cintura e torcida para debaixo dos seios flácidos e suados. Aparentava uns cinquenta anos, mas era visto que possuía menos ,das pessoas que lidam na terra pode-se dizer que a idade é mais cruel com elas, envelhecem mais cedo da vida puxada e do trabalho contínuo na intempérie.
Eva não moveu a boca, exceto para soltar a fumaça do palheiro, enquanto um gato se esfregava em suas pernas miando. No canto da cozinha havia uma cortina, donde por horas se revelava uma criança tímida a espiar, com um bico na boca atado numa fralda. Dava um sorriso e logo se escondia na peça novamente.
-Já ordenhou alguma vez, rapaz?- perguntou o velho tomando um balde de assalto de trás da porta.
Marco deu de ombros e levantou as sobrancelhas franzindo o cenho.
-É mudo, Eva!- desdenhou Eugênio acotovelando a mulher-.
-É...- respondeu ela com o canto da boca, sem deixar seus afazeres.
-Vamos puxar as tetas da Eva então! Hein!- gracejou o anfitrião-, Da outra Eva, que também é vaca, mas mora no galpão !
-Puto!- ralhou a mulher, da piada grosseira, com ar jocoso.
Enquanto se afastavam da casa em direção ao estábulo ele podia sentir o cheiro bom que se desprendia da janela da cozinha, o cheiro da janta, algum refogado estalando apetitoso na caçarola, cheiro de cebola, de pimentão, de alho, de óleo, cheiro bom de comida.
A teta morna e dura espirrava a última ordenha do dia, a “ordenha da tardinha”, pouco a pouco ia lotando o balde de lata, enquanto o velho acariciava o úbere da vaca. Bem se sabe que não é qualquer um que consegue ordenhar a vaca, ela está acostumada às carícias de uma mesma mão, e é para ela que derrama seu precioso fruto.
-O leite ainda está crú e aqui se toma assim. Tem gente que tem nojo. Mas eu digo que se faz bem pro terneiro, faz bem pra mim. Se quiseres agora te agarra num copo e serve do balde. Se não és de fora já vais querer que a Eva ferva, aposto!
-Quantos litros aí se vão?- perguntou Marco.
-Depende, a esta hora tiro um litro ou quase isto. Pela manhã eu ordenho dois litros bem medidos. É das boas!-
Eugênio se dirigiu a um rapaz que descia o barranco à cavalo “André, uma cabeça, foi o que o sovina da fazendinha troca pela leva de melões, pelo fusca e pelo terneiro!”
-Noite!- dirigindo-se à Marco.
-Boa Noite!-respondeu.
-Este é um amigo que veio para jantar!- disse Eugênio.
-Vamos entrar, estou louco por um banho!- disse o rapaz atando o cavalo ao alpender.
Logo que adentraram, correu detrás da cortina a criança envergonhada e pulou nos braços de André. Logo se reconheceram pai e filho, como fazem os animais que cheiram aos filhotes para lhe tomarem como suas crias pela identidade do cheiro. Também seguiram com brincadeiras de cócegas e entraram pela cortina.
-Trata dele André, tem berne na bunda!- disse Eva, se esquivando do acido que espirrava da cebola que cortava.
Depois da janta o velho pegou um acordeon e tocou até alta noite. Fazia rimas engraçadas e puxava palmas dos ouvintes: Eva, Marco, André e sua mulher e filho. A crinaça, nestas alturas, já não tinha mais vergonha e dançava uma dança desengonçada que misturava socos, chutes e um sapateado de moda desconhecida. Todos riram muito e após um leite morno se recolheram.
Marco foi ter com o céu estrelado, ele estava feliz e o vento quente.
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