Um destino
Marco sentia o músculo da panturrilha puxar. Foi quando parou e massageou os tornozelos. Suas pernas tremiam, acabaram por amolecer. Via o calor do asfalto subir. A estrada irregular tomava um rumo incerto através de buracos cheios de areia, crateras de pedregulhos e acostamento fartamente florestado. Adiante uma curva onde não mais se sabia a direção da estrada. Naquele ponto ela sabia mais que Marcos, para a estrada a rotina é o destino. Aquele errante a seguia, era alguém em quem Marcos podia confiar.
A camiseta atou à cintura e sentou no chão. Esticou as pernas e apoiou-se nas mãos. Da sacola que despiu, retirou uma garrafa de água ainda fechada, embora quente, para aplacar a sede. Seria comum numa situação destas se dizer que está no meio do nada, mas ali parecia que muito o cercava. Marco ouvia o barulho dos pássaros, o de um provável córrego às margens da estrada. O farfalhar das folhas das árvores, o vento zumbindo na orelha. Era possível ouvir seus batimentos depois de um gole grande, cujo exôfago mal continha. Bebeu água e ar, e ambos se misturaram e logo seu estômago inchou. Acima o sol rachava a moleira. Descia como um bloco de concreto incandescente, de milhares de toneladas. Parecia terem aberto as cancelas do inferno e deixado as labaredas lhe lamber a cara.
Com o antebraço enxugou a testa. Vertia, esdrúxulamente, mais água que havia injerido em muitos dias. Marco ainda observou o lugar ao redor antes de partir, e pôde ouvir mais um som, ao longe, às suas costas. Um estalido de rodas, sonolentas e sem pressa vencendo a enormidade de buracos.Uma carroça. Ao se aproximar o viajante foi parando:
-Tarde!
-Tarde!- respondeu Marco.
-Perdido? Carona?
Marco olhou para a curva, uns dois quilômetros à frente, e pensou consigo “E por que não!”
A carroça não era nova e tão pouco bonita ou conservada. Tinha os aros tisnados e cheirava a estrume embora a carga fosse de melões. Depois de certa altura da viajem Marco se perguntaria se o cheiro viria realmente da carroça. Tudo ao seu redor tinha cheiro de estrume. O velho logo se apresentou como Eugênio, filho de estancieiro. Muito cedo conheceu a pobreza quando da morte de seu pai, tendo a mãe que vender as terras para pagar dívidas. Alguns anos mais tarde quando também lhe faltara a mãe, os irmãos dividiram o restante, e da parte que lhe coube, sobrou apenas muito pouco, perdido no jogo e em função do vício ( disse com um sorriso no rosto, jocoso) “Aquela água que passarinho não deve beber”, disse. “No que me resta planto pevides. Alternando na época do ano pra não passar fome”. “Meus filhos, tenho seis bem criados, que já não moram mais comigo, menos um que casou e foi cuidar de roçar. Fez uma casinha modesta onde vive com a mulher e meu neto.”.
Marco ouvia tudo sem fazer nenhum comentário, nem bom, nem ruim, nem concordava com o cenho ou discordava, apenas ouvia o que o velho lhe dizia e imagina, com aquelas boas palavras, o que haveria na vida daquele homem com cheiro de estrume.
-Para onde vai?
-Eu?- replicou Marco, e simplismente não respondeu. Seu estômago resmungou tão alto que Eugênio pôde ouvir.
Quando as tripas chamam é porque não há outro rumo senão comer. É a maior necessidade. Não se pode fazer nada exceto alimentar-se. Um homem não é nada senão aquilo que come, e se não come não é nada.
-Pelo jeito vai é jantar lá em casa! Gosta de abóboras?- perguntou o velho, tocando a carroça e mirando a sua casa em algum lugar da estrada onde ela nem sequer aparecia, mas ele sabia que lá estava, por que lá queria chegar, em casa.
A camiseta atou à cintura e sentou no chão. Esticou as pernas e apoiou-se nas mãos. Da sacola que despiu, retirou uma garrafa de água ainda fechada, embora quente, para aplacar a sede. Seria comum numa situação destas se dizer que está no meio do nada, mas ali parecia que muito o cercava. Marco ouvia o barulho dos pássaros, o de um provável córrego às margens da estrada. O farfalhar das folhas das árvores, o vento zumbindo na orelha. Era possível ouvir seus batimentos depois de um gole grande, cujo exôfago mal continha. Bebeu água e ar, e ambos se misturaram e logo seu estômago inchou. Acima o sol rachava a moleira. Descia como um bloco de concreto incandescente, de milhares de toneladas. Parecia terem aberto as cancelas do inferno e deixado as labaredas lhe lamber a cara.
Com o antebraço enxugou a testa. Vertia, esdrúxulamente, mais água que havia injerido em muitos dias. Marco ainda observou o lugar ao redor antes de partir, e pôde ouvir mais um som, ao longe, às suas costas. Um estalido de rodas, sonolentas e sem pressa vencendo a enormidade de buracos.Uma carroça. Ao se aproximar o viajante foi parando:
-Tarde!
-Tarde!- respondeu Marco.
-Perdido? Carona?
Marco olhou para a curva, uns dois quilômetros à frente, e pensou consigo “E por que não!”
A carroça não era nova e tão pouco bonita ou conservada. Tinha os aros tisnados e cheirava a estrume embora a carga fosse de melões. Depois de certa altura da viajem Marco se perguntaria se o cheiro viria realmente da carroça. Tudo ao seu redor tinha cheiro de estrume. O velho logo se apresentou como Eugênio, filho de estancieiro. Muito cedo conheceu a pobreza quando da morte de seu pai, tendo a mãe que vender as terras para pagar dívidas. Alguns anos mais tarde quando também lhe faltara a mãe, os irmãos dividiram o restante, e da parte que lhe coube, sobrou apenas muito pouco, perdido no jogo e em função do vício ( disse com um sorriso no rosto, jocoso) “Aquela água que passarinho não deve beber”, disse. “No que me resta planto pevides. Alternando na época do ano pra não passar fome”. “Meus filhos, tenho seis bem criados, que já não moram mais comigo, menos um que casou e foi cuidar de roçar. Fez uma casinha modesta onde vive com a mulher e meu neto.”.
Marco ouvia tudo sem fazer nenhum comentário, nem bom, nem ruim, nem concordava com o cenho ou discordava, apenas ouvia o que o velho lhe dizia e imagina, com aquelas boas palavras, o que haveria na vida daquele homem com cheiro de estrume.
-Para onde vai?
-Eu?- replicou Marco, e simplismente não respondeu. Seu estômago resmungou tão alto que Eugênio pôde ouvir.
Quando as tripas chamam é porque não há outro rumo senão comer. É a maior necessidade. Não se pode fazer nada exceto alimentar-se. Um homem não é nada senão aquilo que come, e se não come não é nada.
-Pelo jeito vai é jantar lá em casa! Gosta de abóboras?- perguntou o velho, tocando a carroça e mirando a sua casa em algum lugar da estrada onde ela nem sequer aparecia, mas ele sabia que lá estava, por que lá queria chegar, em casa.
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