16 de maio de 2016

Era uma vez

Era Uma Vez


Primeiro ato
O Imperador de Jade

Da Luz

O Sacerdote levantou-se perante os presentes, e subiu no púlpito elevado, seu lugar no Parlatório da Escola de Mistérios da Ordem da Lua. Ben Adam fez uma mesura ao Patrono de Letras Átticus de Penhascoforte, que acabara de deixar a tribuna, fazendo uma brilhante explanação sobre a etimologia do “Existir”, presente na Passagem Poética da Liturgia “O Terceiro Filho de D’us”. O público era grande, naquela que era uma das mais prestigiadas Escolas de Mistérios do continente.

Ben, tomou o Cânone, na liturgia da criação, e iniciou a leitura àqueles ouvidos atentos, que estavam no Templo, no Primeiro dia de Havdalá, do Primeiro ano do reinado de Ben Adam de Quran e Susana de Niceia. E patronou:
Havia uma pedra no topo do existência.- Ele leu, e continuou-  Criada por D’us, ao despertar de seu sono. Acima da pirâmide do mundo. O olho onisciente da própria criação, se abriu. E ela passou a brilhar como uma estrela, todo o tempo.
E não havia noite.
Então, D'us, moveu-se para a direita e deixou que um filho saísse de dentro da Primeira Consciência. E soprou nele uma dádiva.
E moveu-se assim mais seis vezes, em um círculo, criando sete filhos, cada qual com seu dom.
Sete foram as palavras de D'us e também foram as notas musicais. As cores foram sete e sete foram forças do mundo.”
O Sacerdote interrompeu a leitura. Vejam filhos de D'us, que o homem é uma criação espontânea. Tal qual a natureza. Ele é parte do todo, porque veio de Nossa Senhora da Primeira Conscicência. Cada homem com seu ímpeto, é amado pela Primeira Consciência, e quando tudo se extinguir, é a ela que retornaremos. Vejamos, e prosseguiu a leitura.
Os irmãos não possuíam bom relacionamento, e, para tornarem-se mais poderosos, por diversas vezes, tentaram roubar a Pedra de seu lugar na criação. D'us zangou-se com o comportamento dos filhos, e para castigá-los, ordenou que a Pedra fosse enterrada no sopé da montanha mais profunda.
E então, com a pedra oculta, veio a escuridão.
Os filhos procuraram muito por ela, indo fundo na terra.
O Sétimo Filho, caminhando pela superfície, caiu num desses buracos, cavados pelos irmãos. O buraco era muito profundo, e não conseguia sair dali. Tão entranhado era, que atingia as fundações da terra. E ficou sozinho por longas eras. Estendeu seus braços para o topo, tocando quem ali passasse, mas todos tinham medo daquela escuridão profunda. E Sétimo ficou lá, amargurado e só, jamais foi retirado por ninguém. No início ficou triste e muito infeliz. Ressentido de que ninguém fora resgatá-lo. Depois ficou com raiva. E ódio. E seu coração ficou intoxicado com aqueles sentimentos. Ao final ele quis vingança, e com o passar das eras tornou-se vicioso.”
Essa passagem sobre as primeiras eras da existência nos mostra como é possível que o homem, através da sua autodeterminação, venha a escolher os sentimentos que deseja nutrir, levando os acontecimentos de sua vida para um destino, ainda que de difícil retorno, mas pode que ser alterado, pois somos todos seres conscientes e de vontade própria. O Sétimo escolheu ser dominado por seus sentimentos mais viciosos, assim, o colapso dos bons sentimentos dentro de si, o levaram à sua ruína. Ninguém quis se aproximar dele, pois ele queria ferir aqueles que o faziam. Mas continuemos:
Compadecido dos filhos em meio à escuridão, D'eus, piscando seu olho de fogo, criou um sol, que chamou de Havdalá, quente e avermelhado para iluminar os dias. E três luas. Uma delas, muito lenta e fria, para clarear a noite, afastando o breu da escuridão completa. Uma segunda, cruzando tão rápido o céu que surgia uma vez no horizonte, junto com o sol, indicando o início do dia e seu fim; depois junto com a lua fria marcando, o início da noite. Porém, havia terceira lua, a lua escura. Que cruzava o céu uma vez ao mês, marcando o início de tudo, lembrando a todos da escuridão profunda. A lua negra, era capaz de encerrar até o dia. E levava uma manhã, uma tarde e uma noite para cruzar o céu.”
Algum de vocês consegue nos dizer sobre o que se trata essa passagem?
Uma mulher levantou a mão, e falou, em Copta: Sobre o amor dos pais.
Também, concordou o Sacerdote. Essa passagem fala de um sentimento que é comum aos pais também. É comum que o expressem, porque seu amor é genuíno. Essa passagem fala sobre a compaixão, e como ela, sendo um sentimento tão honesto, pode modificar completamente a realidade. A sua e a de todos. Um gesto de bondade e compaixão, nos arranca da dureza, aquece o nosso interior, de fora para dentro. A bondade pode tocar alguém e modificá-la de tal maneira, que ela mesma passará a ser um agente de mudança, para si e para os outros. Ela vê que isso é bom, e as circunstâncias de seu pensamento são transportadas para o plano da realização.
O Sacerdote tomou um gole de vinho, enquanto Helena passava com um cesto de pão entre os peregrinos que ouviam palavras no Parlatório do templo.
         Ele prosseguiu a leitura “Uma vez que tornou a ver a face da terra, D’us não conseguiu encontrar dois de seus filhos. O Primeiro e o Sétimo. Todos então foram procurá-los, porém sem sucesso.
D’us, muito triste e compadecido da perda de seus entes queridos, deitou-se e dormiu, eternamente.”
A dor da perda. Disse o Alto Sacerdote, fechando o livro, e marcando as páginas com o dedo. Ele fez uma pausa dramática.
Para alguns a dor da perda é insuperável. Ela é assim porque não conseguimos compreender a morte, no auge de nossa ignorância. Foi-nos dito que o fim da existência é o retorno à Primeira Consciência, à unidade singular onde a carne, o volume e o tempo não mais existem da forma como conhecemos. Passamos a fazer parte de tudo aquilo que não existe, ao menos nas circunstâncias e da forma como estamos acostumados a ver. As aparências das condições dessa vida, elas se manifestam através das Leis Universais estabelecidas por D'us. Lá no momento inicial da criação. Ele fez as cores, os sons, as dimensões matemáticas da flor da vida. Essas são as suas regras, e os prisma pelo qual enxergamos a realidade que nos cerca. Essa é a dádiva: que tenhamos a nossa independência de consciência. Vejam, isso é lindo e bom. É o que um Pai e uma Mãe fazem a um filho; eles tem o poder de criar a vida, uma nova consciência. São Deuses em seu mundo, daquele ser que vem ali e que é totalmente independente. E ao mesmo tempo não o é. E então, essa é a sua criação, e, um dia ele morre. Desse modo o pai e a mãe, eles não compreendem naquele momento a perda. E vejam, os sentimentos dolorosos, eles são criados pela ignorância. Então, os pais, eles choram a perda do filho, e não entendem que aquilo que chamam de morte, é o retorno á Primeira Consciência, o estado puro da criação. O retorno a essência elemental da onisciência, a elevação, D’us.
Assim, meus tão pacientes ouvintes, eis o Mistério da Vida, escrito nas pétalas da flor da criação. Tu a tu. E bebeu mais do vinho, inclinando a taça na direção de Sunamon. A colocou sobre o chão de mármore, no primeiro degrau do altar. Sentou-se ao lado da taça, puxando as vestes sobre os joelhos, e abrindo o livro do Mistérios, retornou para a leitura.
O primeiro filho havia cavado ao sopé da montanha. Onde, nas profundezas do mundo, encontrou a Pedra maravilhosa que o Pai havia escondido. E permaneceu quieto, nas entranhas da Terra, para que ninguém viesse a roubar o seu tesouro.
Tomou as profundezas do mundo como sua morada e chamou a Gema de Chesteb, e a quis como único dono daquela maravilha. Estava disposto a defendê-la de qualquer um que tentasse tomá-la de si.”
O que nós vemos nessa passagem? Sobre o que ela fala? Indagou o Sacerdote, para sua atenta audiência.
Ganancia? Questionou um fiel, esticando a cabeça para ver o rosto do Rei Sacerdote da Cidade da Lua.
Coçando a barba ruiva, ele respondeu: "Também, também... A ganância o que seria, senão um desdobramento da propriedade? A propriedade, a maior origem de vícios e desentendimentos. Ela que é a expressão maior do errôneo apontamento de que a natureza deve servir ao homem. Errado, Errado! A propriedade é una! É um legado natural da criação, para todos os homens usufruírem. Esse pão, que comemos agora. Ele vem da aveia plantada pelas mãos de um homem, doado ao Templo para que nosso moinho a tornasse farinha, e as mãos dessas mulheres, junto com a água do Rio Mãe, fizesse o pão, no calor do fogo, que nos foi dado por D'us. A natureza não pode sofrer apropriação. O que vem do homem sim, cada um é dono daquilo que consegue fazer e erigir com suas próprias mãos. O suor do trabalho do homem deve ser recompensado. Mas, ao passo que o trabalho do homem e da mulher constrói e é infinito, na razão da existência dos homem e da mulher , a apropriação da natureza consome a criação. Os recurso naturais são finitos e portanto, não podem estar estar disponíveis para todos de maneira igual. Quando alguém se apropria da natureza, um outro alguém não terá acesso a ela. E essa desigualdade se intensifica, na medida que a propriedade é maior.
E se um tem muito e muitos não tem nada, qual a justiça nisso? Se a natureza não é fruto do trabalho do homem, então não há razão para receber remuneração pela propriedade que possui. Ao homem só pertence o seu trabalho, e a ele que deve ser devida a correspondente remuneração.
E é por isso, meus caros peregrinos, que acontecem as guerras . É sobre isso que se trata essa passagem, um alerta sobre a origem da exploração dos homens, pelas mãos dos seus próprios irmãos. Sobre a alienação da propriedade, e a usura pelo estado natural, sem a remuneração do trabalho do homem. Isso em detrimento da exploração dos desapropriados. O que é veementemente censurado por D’us na interpretação dos Mistérios da Escola da Lua. É isso que colocamos aqui todo Havdalá, e que as outras escolas de mistérios distorcem. Eles querem continuar perpetuando as suas posses. Justificando nos escritos sagrados as estruturas de poder e controle das riquezas.
Pensem nisso, meus filhos. Essa foi a palavra de hoje.
Oremos para a chama que nos lembra que existe um fim para o dia escuro. Mas que também há o dia escuro e que ele não pode ser o nosso fim.
Na fé sem reflexão não há Luz, somente escuridão.
E todos repetiram em coro, “tu a tu”.
O Parlatório foi esvaziando, e Aticus, que permaneceu ouvindo a Patronagem de Ben, foi ao seu encontro. O saudou e abraçou com muito entusiasmo e sorrisos.
Meu amigo, é sempre tão bom ouví-lo! É muito bom retornar à esse Parlotório, sempre muito bem Patronado. Grandes nomes passaram aqui nessa temporada, eu soube. Joyce de Mataguda, Baruc de Shadai, Parmínedes de Niceia, Nossa Sumidade Fineas de Penhascoforte e Mestre Agenor. Grandes nomes de nossos Patrícios Jusnaturalistas. Confesso que soubesse de antemão que tais eminências patronariam aqui, teria vindo passar a temporada. Acabei visitando Parlatórios das Escolas de Mistérios em Porto da Gaivota e na Ilha de Bar, lugares que considero necessitar de uma atenção especial, nesse momento delicado de pós-guerra. A situação dos Jusnaturalistas não está boa por lá. Não há sequer um Patrício Jusnaturalista Patronando diariamente. Só Racionalistas! Aposto que indicados por Edir Gramateus de Shadai. A influência dele cresceu muito na Convenção Racionalista. Muito em breve será nomeado para tornar-se o Alto Sacerdote da Escola de Mistérios da Ordem do Sol da Fortaleza de Copset, e eu digo que muito rapidamente será a Sumidade Oriental, e riu, apertando o braço de Ben Adam, que ocupava o cargo atualmente. E Ainda bem que, bem aqui, na frente, há uma Escola famosa pela tradição Jusnaturalista. Mas vou indicar alguns nomes de Patronos Patrícios para que, Vossa Sumidade Clerical, querendo, nomeie-os para essas comarcas tão desprestigiadas de Luz.
É verdade, -emendou Ben - Mas entre nós, chame-me de Ben. Esse cerimonial, essa formalidade, sempre me deixa envergonhado e confuso. Mas vamos caminhando. Quero tomar uma boa cerveja de aveia, me acompanha?
E Atticus lhe respondeu enrugando o rosto inteiro,- Não, agradeço. Cerveja em viagem me deixa com uma sensação de que pareço um grande balão, pronto para galgar os céus.
Ambos riram do gracejo. Ben continuou: "Fiquei encarregado de Organizar a Convenção Jusnaturalista daqui uma Quaresma. Podemos fazer uma moção para indicar indicar Patronos dispostos, para lugares onde não ocupamos nenhuma cadeira fixa. Eu sei das dificuldades que os Patronos vêm passando, afinal estão tendo que reconstruir alguns templo e Parlatórios, muitos do zero. E não podemos obrigar ninguém, nesses condições, a ficar em uma comunidade que não deseja. Essa guerra foi devastadora, e os ânimos em determinadas regiões ainda não são de paz. Ainda há rebeldes em Represagorda?"
"A bem da verdade, passei muito rapidamente por lá. Fui recebido pelo comissário,  e naquelas condições achei muito gentil da parte dele me receber por duas noites numa zona safa de Represagorda. Veio a mando de Endro, que estava combatendo imperialistas perto de Everskaya. Sempre há conflitos para restauração do Império Khazar naquela região. Mas acredito que não tenhamos mais problemas com esses homens por lá. Uma praga horrível se alastrou na região. Matou o Rei Jassen, coitado! A região foi isolada e uma zona safa foi construída para abrigar os povos de Evreskaya. Eu vi com meus próprios olhos, Ben, muita pobreza. Me comprometi com o comissário; estou indo à Tocasnegras e á Baia de Ouro para aprovar uma moção de repatriação temporária. Muito triste. A peste chegou à Represagorda, após a minha saída. Os boatos correram rápido, falam que Vossa Sumidade Ocidental, Fineas de Penhascoforte, esteve em Evreskaya para auxiliar no tratamento dos doentes. Inclusive, acabaram transportando Sara de Khazar, que estava exilada em Represagorda. Mas parece que não a tempo de livrá-la da contaminação. Foi a única vítima de Represagorda. Eu soube disso por lá. Foi o próprio Finéas que a encontrou morta.
Sim, eu soube. -Disse Ben, na Varanda a servir-se uma caneca de cerveja de aveia, que estava numa tina tapada. Os Patronos sentaram e tiraram as sandália. Ben Adam pediu a aprendiz que trouxesse água quente para os pés dos dois. E prosseguiu, deixando um bigode branco de espuma acima da boca.
Fineas ao retornar para Penhascoforte esteve visitando o Rei Tantalus Dágoras. E me juntei a eles, homens de quem tenho muito apreço e elevada estima. Soube de tudo porque ambos estiveram no Sepultamento do Rei Jassem, em Represagorda. Mas há novidades.
E completou, com um largo sorriso no rosto: “O nosso querido Rei vai se casar, finalmente!”
E Atticus abriu um sorriso tão largo quanto. E os dois se aproximaram, riram e se abraçaram. Ben Adam passou o dedo na linha d’água e afastou algumas lágrimas de alegria. E os dois trocaram olhares de sincera e real felicidade pelo Rei.
Ai, ai... Então é isso. - Patrono Átticus disse a si mesmo inebriado, lembrando de quando fora o Preletor daquele homem na infância. Acho até, (e levantou-se gemendo e estalando as velhas espaldas), que vou aceitar aquela cerveja.
E caminhou, rindo sozinho, na direção da tina.

O Mar de Carabeus
Fineas segurou o cristal preto entre os dedos e soube que Joyce estava viva. Sentia saudades da amiga Patronesa de Mataguda. Tanto tempo viajando ao seu lado e agora separados. Mas não se arrependia da distância quando lembrava que ela era a mulher à frente do Templo de Mataguda. Seu estado de permanente inquietação com injustiças tranquilizava o coração de Fineas, que sabia que ela iria contra todos para tornar efetivos os princípios com os quais estava comprometida
Pensara com tristeza, que aqueles amigos que lutaram tanto pela paz atual que sentia sobre aquele convés onde se encontrava hoje, estavam separados.  Não só pela distância, mas em seus espíritos. Ben Adam de Quran, Susana de Niceia, Aticus de Penhascoforte, Joyce de Mataguda, Edir Gramateus de Shadai, Tantalus Dágoras. Tudo havia mudado.
Agora estava ali, na ausência inescusável do amigo e pai de Ágoras, Tantalus Dágoras, levando o filho para casa, depois de anos em terras estranhas. O menino ficara esperando ser buscado. Não fora mandado nenhum navio. Nenhuma comitiva. Nem um perdigueiro para avisar-lhe uma data de regresso. Fineas achou por bem organizar ele mesmo uma viagem. Armar um navio e trazer consigo os meninos que foram para os Salões de Jade, hoje três homens completamente desconhecidos de todos.
O capitão tocou no ombro de Fineas, que estava absorto na visão das ondas douradas da Baía de Ouro, distanciando-se no horizonte. “Estamos entrando na foz, no Mar de Carabeus, pararemos somente em Inkaar, há sete dias de viagem.”- a Sumidade Clerical assentiu com a cabeça, enquanto o cabelo preto se dispersava sobre os olhos, ao sabor do vento. Sentiu um aperto pelo que esperava do futuro. Mas quis afastar os sentimentos sombrios que insistiam em retornar.
Ele ainda tinha uma promessa a cumprir, sobre a qual sentia uma grande responsabilidade. Sabia que deveria navegar naquele mesmo navio, no qual passara tanto tempo atravessando os mares, de cá pra lá, atrás de pistas para as dúvidas que Dágoras levantara no passado. Sabia que aquela fragata iria até as cidades gêmeas, e depois, o empurraria mais uma vez através do Mar de Carabeus, para longe, nas areias silenciosas que inconscientemente tentava evitar.

Os homens duros dos Salões de Jade
Tão logo soube que seu pupilo seria enviado pelo próprio pai para estudar nos salões duros, Ben Adam mandou que preparassem uma balsa para sua travessia. Iria à Fortaleza, do outro lado do Ausar, tirar satisfações com seu velho amigo, o Rei Pacificador.
Uma fina esperança ainda resistia fraca no coração de Ben, de que seu velho amigo o ouvisse, evitando a partida prematura do filho, que estava prestes a seguir o caminho sofrido dos homens dos salões. Sabia que após a morte da esposa, o amigo e Rei Dagoras, ficara sombrio, e uma cor cinza lhe caiu sobre o olhar. A preocupação que nutria com o filho deu lugar a um distanciamento. E uma causa desconhecida o tornara resistente aos apelos da criança. Não o queria por perto. O queria distante. Tão distante dos olhos, quanto da alma já estava.
Mas Ben Adam ainda acreditava que o pequeno Ágoras com seus olhos verdes brilhantes, tal qual os da mãe, pudesse quebrar o rigor imposto pelo coração severo e endurecido do seu pai. Fazendo com que ele voltasse a ser o homem de outrora. Que aquele laço pudesse renascer, restaurando a um homem, a uma família, a um reino.
Entrou como um vento nos aposentos de Tantalus Dágoras, balançando a toga cândida, ignorando os guardas. As portas voaram para trás e estouraram na parede. Mas o Rei permaneceu imóvel, olhando para as chamas, do fundo da sua cadeira de madeira de ébano.
O Bardo o interpela, como quem quer satisfações: Os Salões de Jade? Francamente!
O Rei permaneceu em silêncio, com um rosto severo, ignorando completamente o amigo e Rei da Cidade Gêmea de Harpis.
De onde veio tal idéia, tamanha insanidade?- cobrava Ben, realmente muito exaltado.- Penhascoforte, Solar das Laranjeiras, Vaudeferro, até Passo da Balsa! Mas Salões de Jade… Increditável... Você poderia tê-lo mandado para qualquer Escola de Mistérios, Dágoras. Qualquer uma o acolheria, como acolheriam a você. Miriam de Tocaspretas implorou para recebê-lo! Parminedes, em diversas ocasiões deixou claro que gostaria de levá-lo para o centro de estudos das estrelas. Mestre Agenor, o queria para que o auxiliasse nos assuntos do Decanato. Até Vaudebaixo manifestou , mais de uma vez, o prazer que seria ter Ágoras na corte, e patroná-lo nas Ciências da Administração Geral e da Política. Fineas, ele o queria muito e como o ama! Fineas já sabe desse desatino? Ah! Meu coração está quebrado.
Então, Dágoras emergiu do silêncio e falou, com um severo distanciamento: “Mandei com ele Trinta Preletores, escolhidos a dedo pelo Alto Sacerdote da Fortaleza do Sol, Sumidade Oriental. Foram seis pajens, duas serviçais, dois Prestantes e dois meninos de sua idade foram com ele, Goim de Solar das Laranjeiras e MIguel Tocaspretas, para que não se sentisse sozinho. E não será por muito tempo. Dez, doze anos talvez. Ele não podia mais ficar aqui. Não sei mais se Fineas e os Patronos da Lua seriam uma boa influência, afinal. No final do verão de cada triênio, um barco sairá de lá, para que ele possa passar alguns aniversários comigo. Então ele retornará.”
“O quê? Onde está o teu juízo? Nós não apenas somos teus amigos, como lhe amamos, exatamente como amaríamos a um filho. Sentimos o mesmo amor fraternal por Ágoras. Ele é o herdeiro do pacificador! Veja Dágoras. Seu único filho está do outro lado do continente, sozinho, depois de tudo o que aconteceu. Ele deveria ficar ao lado do pai! De amigos, pessoas que o amam!”- persuadiu Ben, sem sucesso.
Mas o Rei se fechou, e retornou a um silêncio inquebrável. Passando o atiçador sobre as chamas, de lado para o outro. Um silêncio que manteve por todos os anos restantes.

Rei endurecido
O próprio rosto refletia na água. Os olhos e a pele levemente acinzentada. Mas apesar das preocupações e do tempo, o cabelo ainda estava preto, tal qual na juventude. Mas o que mais lhe impressionava era o semblante daquele homem que via na água turva do fontanário que construíra para o filho, quando ainda na barriga da mãe. Tinha uma pele cedendo aos apelos da tristeza, uma linha que cruzava como um arco sobre as sobrancelhas, que escorregavam pelo cenho. Uma boca que já não era capaz de esboçar um sorriso. Se pensasse em fazê-lo, logo lhe vinha um suspiro e uma enganação. Um arrependimento amargo que cortava o peito. Um remorso rasgando uma ferida antiga, que não curava nunca.
Seu punho cerrou sobre o papel amassado na palma.
Aquele homem que estava ali na água, diante de si, era ele mesmo e não era. Ficou pensando que o eu verdadeiro ficara num momento do passado, rodeado de amigos e lembranças de vitórias. Que era um homem justo e bondoso em tempos antigos. Aquele que via ali, era alguém irreconciliável com o homem que jazia aos pés da lareira, na escuridão do aposento Real da Fortaleza do Sol.
Ele olhou o papel que guardava dentro da palma, muito amassado. Via um pedaço da assinatura, o nome e a caligrafia de Fineas, amigo daquele homem, que não era o refletido sobre as águas castanhas da fonte.
Ele levou a carta consigo, para dentro do quarto escuro, porque fazia questão de ateá-la ao fogo, como fizera com muitas coisas no passado.
Nosso Senhor - disse o prestante indo na direção de Dágoras com um sorriso no rosto- o barco chegou. É o primeiro dia de verão, Nosso Senhor, o dia no Nosso Senhorzinho! É dia do nascimento do nosso Príncipe! O Porto está enfeitado e a Fortaleza está o esperando com os estandartes dourados!  Gostaria de uma liteira, Nosso Senhor?”
O Rei, olhou uma última vez para o homem na fonte.
Ponha lenha na minha lareira. No meu quarto faz frio. Peça que ninguém me perturbe. Estarei ocupado, muito ocupado.” - deu às costas para o prestante, ignorando as cornetas e buzinas além dos muros do pátio central.

O Enigma de Shadai
Desde Evreskaya, sentia-se responsável por tudo que aconteceu. E aquela responsabilidade o levou por tantos caminhos, até a proa da fragata bater no solo pedregoso das praias de Shadai.
Esteve em tantos lugares procurando por respostas. Dúvidas. Enigmas.
Somente uma pista, dada por Jena Represagorda, frutificara afinal.
E ele estava ali, depois de tantos anos, pisando novamente nas pedras duras das ilhas silenciosas. Aquele porto cinza onde as urzes morrem, a morada do escapismo inexorável, de todas as histórias jamais contadas sobre Shadai.
Somente subornando um escriba, conseguiu a confirmação de que lá estava o homem que procurava.
E quando o viu, sentiu pena. Tinha um aspecto muito senil, com as costas encurvadas, poucos dentes na boca. E muitas, muitas cicatrizes espalhadas pelo corpo.
Os olhos verdes vibrantes, dançavam soltos nas órbitas escuras. E ele ficava lambendo os lábios repetidamente. Olhou para Fineas,e não olhou. Estava alheio ao mundo.
Fez um voto de silêncio, desde que chegou aqui. Disse o escriba.
Não importava, pois, apesar do silêncio, as fitas daquele homem, gritavam sobre todos os acontecimentos.
Fineas ficou compadecido dele, na sua miséria. Mas, sentiu um alívio, embora iníquo, por sabê-lo ignorante de seu estado.
Há uma jovem mulher que veio por ele, umas duas ou três vezes. E fez exatamente o que o Senhor está fazendo agora. Fica aqui, olhando e acariciando o homem. Mas nada diz. E assim como veio, vai. E aqui em Shadai, nós não falamos sobre os visitantes. Estendeu a mão na direção de Fineas, esperando ser pago.
O Sumo Sacerdote, fez como prometido. E ficou balançando a cabeça, tentando entender os fatos.
O homem doente colocou a sua mão entre as do Sacerdote. Ele não esperava por isso. Seus lhe encontraram, e se demoraram. Mas era um olhar alienado, embora solitário. Depois fixou a vista na Lua tatuada entre os olhos do Sumo Sacerdote da Escola de Mistérios da Ordem da Lua.
E Fineas, no meio do silêncio que só há ali, soube que era culpado de tudo. E acariciou aquelas mãos tortas, de pele fina, e ossos salientes, na tentativa sincera e ineficaz, de espiar seus pecados.
Fineas colocou a mão na bolsa e entregou uma pedra para o homem. Uma pedra  branca que brilhou ao comando de suas palavras. Ele a pôs na palma do homem e fez com que a fechasse.
Se a guardares bem, saberei que bem te encontras.”- falou com um sorriso e lágrimas. Não só por aquele que à sua frente se encontrava e toda a sua condição, mas porque ao tocar as pedras dentro da sua sacola, a sua pedra favorita, a dourada, havia se apagado. E ele tristemente sabia que deveria voltar, o quanto antes, para a Fortaleza do Sol, e rever pela última vez um grande amigo.

Um Homem Preocupado
O barulho das pessoas na rua era motivo de alegria. Risos, gracejos, e conversas tolas. Muitos estrangeiros lá fora nas vielas apinhadas. Mas assim que Fineas entrou, logo após a mulher fechar a porta às suas costas, sentiu que aquele lar não partilhava do mesmo sentimento.
A mulher tinha o semblante cansado, como alguém que não faz asseio há dias. Estava com um lenço na mão, e uma fita preta amarrada no pescoço.
Fineas desceu o capuz imediatamente. “Meus sentimentos.” - Ele disse.
Ela meneou com a cabeça, e apertou a boca, como quem vai chorar.
“Está difícil, muito difícil.” -Fineas aproximou-se dela, e a puxou em um abraço de consolo, esfregando as suas costas. Enquanto o choro vertia inconsolavelmente.
Seu velho amigo havia partido, também era duro difícil para ele, que sequer conseguira chegar a tempo de uma despedida.
Ainda que o pesar fosse grande, e ainda quisesse chorar a sua morte, deveria afastar esse sentimento, pois sabia que agora, aquele bom e justo homem, estava junto de D’us. E ele necessitaria, nessa hora crucial, fazer perguntas a essa mulher, chamada Elaia. Perguntas que iriam remexer as feridas recém abertas em seu coração.
Elaia, eu preciso saber de algumas coisas…- prosseguiu com ressentimento, afastando a mulher e a conduzindo até uma cadeira. Ele mesmo não sentou, ficou ajoelhado, segurando sua mão, a confortando.
Era uma casa humilde, dentro dos muros da Fortaleza, como a maioria das casas de lá. Precisando de pequenos reparos por fora. Mas não era pobre. Lá dentro, havia coisas finas. Bacias de louça, Essência de cacharréis queimando nas lamparinas. Os pés da mulher, vestiam sapatos com bordados finos de Saigão. E ela era robusta, e forte, uma mulher tão alta quanto Fineas. De longos cabelos melados, e apesar do estado em que se encontrava, ainda se via que era muito bonita.
“Elaia, eu preciso.” -Ele insistiu.
“Não, Fineas. Não faça isso comigo… - a mulher meneava a cabeça. -Eu sinto muito, mas preciso saber dessas coisas, Elaia. Eu acredito que tenham conspirado contra ele… Escute, não há ninguém na Fortaleza do Sol em quem eu possa confiar nesse momento. E ele sempre me viu como um amigo, um confidente. Tu bem sabes. Mas isso aconteceu, eu estava longe. Não nos víamos há cerca de seis anos quando ele.. Bem, ele me pediu que procurasse respostas para dúvidas que tínhamos. Então, depois de muito tempo, e depois de andar por muitos lugares, eu as encontrei, embora ainda não tenha uma confirmação. E andei muito, Elaia. Eu as encontrei em Shadai. E quando eu finalmente estava retornando, ainda em Mataguda, recebi a notícia. E larguei tudo, vim direto para cá. Escute, Elaia, eu preciso saber se você deitou algum filho dele. Elaia.. Alguma vez, eu vou compreender se me disser, eu prometo.”
Então ela chorou lamentando, mas negou com a cabeça.
Ele estava muito nervoso, e suas mãos tremiam sobre as dela.
“Elaia, alguma vez ele lhe contou sobre algum filho ilegítimo? Seja honesta. Nesses anos todos, você soube de outra mulher?”
“Não, não, não… Ele não me falaria se eu não descobrisse sozinha. Não me importaria também se tivesse, afinal era só isso entre nós. Fineas, eu fiquei aqui, eternamente esperando por ele. Então ele vinha com frequência, e depois começou a vir cada vez menos. E quando o seu filho voltou, ele não veio mais. Está ali, para que veja. E apontou na direção de um aposento tapado com uma cortina. Desde então eu tenho dormido pela sala. Nunca mais me deitei naquela cama. Só olho para lá atrás dessa cortina. Mas ele nunca deixou de mandar nada. Embora isso me doesse mais que tudo. Me fazia saber que ele ainda lembrava de mim, e no entanto, nunca mais… nem o porquê…”- a voz embargou e Elaia ficou silente, soluçando sobre o ombro do Sacerdote.
Fineas restou pensativo. E a mulher deitou a cabeça sobre o seu ombro, enquanto ele afagava o cabelo macio dela.

A Aposta do Alto Sacerdote
É bem sabido pelos aprendizes das Escolas de Mistérios, que não existem profecias inexoráveis, pois aos vivos é dada a liberdade da autodeterminação. Eles farão as suas escolhas próprias, o que possui reflexos diretos no futuro.
No entanto aquele homem, que tão cedo deixara a ilha de Shadai, com o objetivo de se tornar um cantor dos Mistérios, um pastor ou até um Sacerdote, tinha uma forte intuição de que aquela profecia iria se cumprir. No silêncio do barco Mercante da marinha de Saigão, que o transportaria até Coptset, conheceu uma misteriosa mulher. Ela se dizia Sacerdotisa, mas sua veste era negra, como a das mulheres proibidas. E ela o levou até o interior da sua cabine, diversas vezes.
Quer ver sua sorte? Perguntou, atrás de um biombo de seda que havia improvisado no estetor da fragata, enquanto desvestia sua burca fina e transparente. Edir Gramateus de Shadai não lhe dissera sim ou não. Ela ajoelhou-se aos pés do leito onde ele estava, e pós o seu dedo na boca.
Os olhos amendoados, num verde vibrante como as água do mar aberto, vidrados nas fitas do jovem.
Nunca antes estivera com uma mulher.
Por um momento pensou ter visto presas enormes entre seus dentes, como uma cobra. E seu olho ficar branco como leite. Mas fora só uma ilusão. A mordida sim fora real. Um pouco de sangue escorria entre seus lábios. Mas ela sorriu, acariciando o dedo do jovem com a língua.
Ela então o soltou, e com ar de satisfação voltou ao biombo. Eu sei o seu futuro, ela disse.
É uma profecia? Perguntou o jovem, gaguejando e enrolando o dedo furado no camisão.
Uma profecia, você pergunta. Talvez, eu respondo. Eu aposto que sim, falou com a voz melosa, cheia de um sotaque desconhecido, enquanto o olhava por trás do tecido.
Ainda na luz pouca da cabine, ele via a jovem de pele negra, brilhando através das falhas da seda, com seu corpo cheio de sal.
Você quer sabê-lo?, ela perguntou, puxando a seda que os separava, que desceu sinuosa no ar.
O jovem sentou na beira do jirau, admirando a mulher. Quero, e engoliu a saliva, esperando uma resposta.
A Sacerdotisa caminhava na sua direção. Você tem o sangue doce do Sacerdócio. Eu vi na magia que somente com sangue se paga, que tu, terás muito poder. Transformarás um jovem em Rei. Obterás vitória perante muitos poderosos. Sujarás tuas mãos com Sangue de um ente querido. E quando teus cabelos estiverem brancos, e teus lábios azuis, um gume negro atravessará o teu pescoço, de um lado a outro. Disse a mulher sentando no colo de Edir, e fazendo, com a aponta do dedo, o movimento da arma no seu pescoço. Então ela sorriu e ele lhe abraçou forte, e lhe deu um beijo no cabelo.
“Quando a verei novamente?” Ele perguntou.
Nunca, mais.- ela respondeu sorrindo, e o empurrando sobre as cobertas.- Isso tambem vi na profecia.”
Essa lembrança, tão distante, o visitava muito frequentemente nos últimos tempos. Parecia, afinal, que a profecia estava prestes a se realizar. Um jovem Rei.
Acordou dos devaneios do passado de sobressalto, porque Hermínedes de Saigão o sacudiu, estava na hora de se manifestar em favor do jovem Príncipe, ali diante do Conselho. Enquanto ajeitava a toga, antes de se pronunciar, passou a mão na cabeça, seus cabelos ainda estavam bem escuros. Não havia com o que se preocupar, por enquanto.

O Festival da Roda e o Conselho Clerical
O Decano meneava a cabeça, inconformado com o que o Príncipe Tantalus Ágoras do Sol reportava, enquanto as falas descontroladas e desorganizadas, de todos os Conselheiros ecoavam pelo salão. Ele balançava a mão, pulando em cima da cadeira, tentando chamar a atenção dos presentes, para requerer o silêncio necessário ao seu proncunciamento.
Estava incrédulo de que um ladrão, um rélis larápio, tenha entrado, sem que ninguém o visse, e tenha não apenas tentado roubar a coroa que estava na cabeça do Rei, mas também entrado numa luta corporal que custou a vida de Tantalus Dágoras. O que tornava a situação mais difícil de ser creditada, era o fato de que o suposto ladino estaria vestido como um homem da guarda. Fazendo supor que premeditara o assassinato do guarda pessoal do Rei, trocara de vestes com ele. E adentrando os aposentos de Nosso Senhor da Fortaleza do Sol, um hábil esgrimista, não tenha sido por ele reconhecido e colocado morto. Tampouco tenha despertado a prontidão do Rei, posto que foi pego em desvantagem, momento em que foi assassinado. Isso sem falar nos diversos guardas e toda a segurança de que gozava o governante, no seio do seu Reino. E, para tornar a situação ainda mais obtusa, o príncipe fora ferido, quando, ao ouvir os sons da luta, adentrou nos aposentos reais, e teve o rosto atingido pelo atiçador em brasa.
O larápio estava enforcado e decapitado no pátio do público da Fortaleza. E o guarda assassinado, jazia no sepulcro, velado com as honrarias militares das quais era digno.
Mas Tantalus Ágoras insistiu nessa versão.
Edir Gramateus de Shadai a confirmou, pedindo pela palavra em defesa do jovem. E o salão se encheu de murmúrios. Porém restou muito espanto na audiência quando o Sacerdote demandou pelo elixir dos honestos. E todo o conselho, que estava inclinado pela hipótese de Parricídio e Conspiração do Herdeiro, demonstrou satisfação na escolha do Alto Sacerdote.
O que foi feito.
Ainda que suando levemente, o Príncipe contou a versão, detalhadamente, tal qual expusera perante todo o conselho. O Mestre das Verdades, da Torre Laranja de Magia da Última Vila ao Norte, em pessoa, aplicara o elixir. Acompanhou o desenrolar do procedimento, auscultando o coração do Príncipe e contanto as batidas calmas em seu peito. Passou o Mel de Esteno em seus lábios, de forma que qualquer palavra mentirosa que lhe saísse da boca, transformaria imediata e temporariamente a rigidez de seus músculos, paralisando-o. Ao final do testemunho ele levantou dizendo Juro. O Mestre das Verdades inclinou a cabeça, entortando a boca, com uma expressão de aprovação. Não havia nenhum sinal da mentira.
O que foi seguido de uma agitação entre todos os Anciões, todos os líderes e Sacerdotes. Reis e Rainhas presentes.
Mais uma vez o Decano pediu silêncio, e foi sentenciado que o rei Tantalus Dágoras do Sol fora morto por um ladrão, ao ter sua coroa subtraída dentro do domínio Real; que seu filho sofrera injúria durante o evento; que os responsáveis já haviam sido sentenciados e punidos; que era inocente diante às acusações que a ele era imputadas. Que estava livre para Governar no lugar de seu pai.
E todos foram obrigados a votar pelo reconhecimento da sentença e pela legitimação do governo do sucessor de Tantalus Dágoras do Sol, pois não havia provas que incriminassem o Príncipe. Fora submetido ao probatório máximo e inquestionável do Mestre das Verdades.
Esse que era o único filho de Dágoras, trazido ao mundo por Rejane, no dia de Havdalá. Ela, que morreu queimada, sob circunstâncias incertas. Tinha fama de louca.
Então Tantalus Ágoras foi Sagrado o novo Rei e governante da Cidade do Sol.
E mesmo não felizes ou crentes dos acontecimentos, todos os Senhores que ali estavam, comemoraram a festa tradicional da banda oriental das cidades gêmeas, o Festival da Roda.
O Conselho Clerical fora reunido, nessa oportunidade, em razão de que todos os membros estariam presentes, incluindo o Decano, cuja idade já avançada o impede de efetuar longas viagens atualmente. E isso seria necessário à investigação das circunstâncias da morte do Rei, e à possível elevação de seu filho único ao trono.
O evento se repetiria dentro de vinte anos, quando todos retornariam à Coptset, a Fortaleza da Cidade do Sol. Então a roda voltaria a girar, nas mãos do Decano do Conselho, e a cidade que receberia o fragmento da Gema pelos próximos vinte anos, fosse conhecida.
Agora não era a hora de Coptset. Mas seria, muito em breve. Era a vez Tantalus Ágoras do Sol diminuir, já tinha feito a sua jogada.
Ele sabia como obter poder. Aquele fragmento não seria nada, perto do que estava arquitetando. Um visionário, chamava a si mesmo. Apresentando seu rosto escarificado para o Conselho com uma certa dose de prazer.
O Parlatório da Propriedade
Os conselheiros haviam sentado em seus lugares. Com todas as cadeiras e mesas dispostas em círculo. No meio da arena de homens e mulheres, dos sábios e de todos titulados para estarem ali, repousava o púlpito levadiço.
Muito bem organizado estava o evento, que era parte tradicional do Festival da Roda. O tema do Parlatório do ano era a Propriedade. Um tema muito polêmico para os conselheiros, cada um no seu entendimento.
Naquele ano o Parlatório iria apontar a corrente majoritária de entendimento sobre a propriedade. Até que fosse votada a necessidade de um novo parlatório para rever o tema.
Depois que todos estavam acomodados, diante de seus documentos, papéis, tinteiros e gizes, O Decano entrou no salão, e foi recebido de pé por todos, que em sinal de reverência, batiam seus punhos nas mesas.
O Decano vestia a Toga Trabea, uma toga densa de lã de Caxemira lilás, ornamentada com riscas horizontais de cor púrpura. Era usada pelos áugures e sacerdotes Decanos, durante os atos rituais.
Ele estava atrapalhado com todas aquelas vestes, pois o peso da indumentária já não servia para alguém tão velho como ele. Novecentos anos. Trezentos como Decanato. Mestre Egídio da Guilda dos Artífices. Sua estatura correspondia à meio corpo de um homem e seus pés balançavam quando tomava o acento. Sua cabeça ficara abaixo da linha da mesa e por essa razão costumava permanecer de pé, numa banqueta, durante as audiências. Ele ajeitou o monóculos no rosto, abaixo das sobrancelhas felpudas e brancas. Coçou os fartos pelos das orelhas, e em seguida fez uma mesura para a plateia, e se juntou ao Parlatório, dizendo:
No ano de dez mil quinhentos e quarenta, da terceira era após a escuridão, inciamos o quarto Parlatório desse século. Inicialmente peço licença ao presentes para referir que na data de hoje comemoramos vinte anos da assinatura do Tratado da Aliança Libertadora, tema do último Parlatório, incluindo a moção do Sumo Sacerdote Fineas de Penhascoforte, para aditá-lo, três anos depois, na reunião Extraordinária do Conselho Clerical de Anciões na Última Vila ou Menos ao Norte, incluindo o texto da bula de ações para paz. Tal aditamento instituiu a necessidade, de que seja decretado por esse Conselho, o estado de Guerra Geral, para a prática legítima de qualquer ato guera. Foi engendrado, o inédito e louvável requisito indispensável para legitimação de qualquer ato de guerra, barbárie e expropriação arbitrária, de qualquer povo. A Aliança Libertadora foi bem sucedida, e pôs fim à implacável guerra que devastou, tanto Ocidente, quanto Oriente. Extirpando a ameça dos Khazar do continente inteiro, trazendo paz e possibilitando a retomada do crescimento e da prosperidade de todos os povos. Tal instrumento de lei é um marco para toda a civilização dos vivos, jamais na história tinham os povos se reunido para defender e discutir o bem comum. Naquela oportunidade, se bem em lembro, ficou estipulada uma agenda, para os próximos três séculos, que eu espero poder cumprir juntamente com os Senhores, se a idade permitir. E deu uma risadinha, retribuída pela audiência. Hoje, vinte anos depois, inauguramos a pauta que irá tratar da propriedade, digo a todos aqui presentes que não podemos esquecer, diante do gozo das boas condições que se estabeleceram nesses vinte anos, dessa ferida tão recente, e que ainda nos dói tanto, que deve ser relembrada. Não podemos nos esquecer dessa dor, e do tanto que ela dói. Para, Senhores e Senhoras, que não retornemos, nunca mais, àquele estado de miséria espiritual. Não foi à toa que na ultima reunião do Conselho tenhamos deliberado por uma moção de honra, àquele homem que nos liderou tão brilhantemente para a paz dos povos, e que no entanto por uma brutalidade do destino, não pode recebê-la hoje, pois já não está mais entre os vivos, tendo retornado para o lugar de onde tudo vem. Meus mais sinceros pesares pelo passamento do rei Tantalus Dágoras do Sol, O Justo, um homem de muito valor.
Respeitáveis Senhores e Senhoras, Eminências Clericais, Nossos Senhores de todos os Povos, Conselheiros e Conselheiras que representam os seus consectários, Autoridades Seculares das Guildas, Mestres das Torres de Magia e Representantes das Ligas de Mercadores, Senhores e Senhoras das Tribos, Autoridades Militares e Acadêmicas, o tema do Parlatório, que aqui tem início, é a Propriedade. Um assunto de tão relevante importância para o desenvolvimento de todas as esferas do conhecimento, que hoje, nos reunimos aqui, ouvindo as falas dos Conhecedores mais renomados sobre o assunto. Para, ao final, deliberar um entendimento comum sobre o que venha a ser propriedade, e como devemos inclinar nosso comportamento, e de todos aqueles que nos são subordinados, para conciliarmos nossas ações de forma harmoniosa, visando o bem e o interesse comum, num alinhamento. O legado de nossa existência pressupõe que tenhamos nascido. Após vivido e então morrido. E ao viver, erigimos aquilo que será deixado para os demais, aos que aqui permanecerão. Nosso entendimento, nossas façanhas, nossas projeções na construção de um mundo melhor. Tudo isso encerra a esperança de um mundo possível, para todos aqueles que virão depois de nós. Nessa constante, a propriedade assume um papel tão indissociável da construção do legado, que nem ao menos podemos cogitar deixar de de discutí-la. É, no entendimento de alguns, razão e origem da Riqueza dos Povos, para outros a semente da guerra e das desigualdades. Para alguns ainda é possível admitir que ela possa coexistir harmoniosamente com a igualdade entre os vivos, se lhe forem atribuídos limites. Há aqueles que acreditam que ela não deva existir em nenhuma circunstância, de modo que a natureza não pode ser apropriada pelos vivos, o que lhes cabe é tão somente a remuneração a ser atribuída ao esforço do seu trabalho. Conselheiros e Conselheiras aqui presentes, duas teses, de dois Eminentes sábios, sumidades em suas áreas do entendimento, foram escolhidas para defender as duas correntes que serão debatidas nesse Parlatório. Cada Sapiência terá uma queda de ampulheta para defender as suas correntes. Em seguida, os Senhores terão um tempo para discutir internamente e deliberar. Mas somente ouviremos o voto dos Conselheiros, precedido de uma justificativa de no máximo duzentas palavras no vernáculo. Somente os Conselheiros terão palavra e voto. Caso todos os membros de sua casa tenham votado com o conselheiro, o voto será com unanimidade. Caso queiram acolher uma tese na sua maioria, porém com divergência interna, apreciem o voto da Sapiência, apontando o membro, ou membros, divergentes. Declaro iniciado o Parlatório, passo a palavra para o primeiro Adido: nosso anfitrião, Vossa Autoridade Clerical, Vossa Sumidade Oriental, o Alto Sacerdote da Fortaleza da Sol Edir Gramateus de Shadai.
O Sacerdote fez uma mesura, inclinando-se para o Decano, e novamente para a audiência. Vestido com a toga Candida, subiu ao púlpito e iniciou a defesa de sua tese, intitulada A Propriedade como Direito Intrínseco da Existência, Concedido aos Vivos Pelo Próprio D’us.
A areia ainda não havia terminado de cair quando fez suas considerações finais. E encerrou concluindo que a propriedade era um direito natural previsto no Livro dos Mistérios, que D’us fez os vivos para gozarem de sua livre consciência, e que nisso não havia bem ou mal, e portanto a propriedade não é boa nem má, por ser criação dos vivos. Ela é o reflexo daquele vivo que faz com ela o que quer, e que faz dela um desdobramento das suas ações. Se o homem é ganancioso, logo fará mau uso da propriedade. Se for bom, fará uso digno da propriedade. E por ela não possuir existência senão pelas ações dos vivos, ela não pode ser classificada como boa ou má. Mas sim os vivos que fazem com que ela exista, esses sim são bons ou maus, dentro das acepções epistemológicas desses termos, na cultura de cada povo. Encerrou com uma citação do próprio Decano, e logo foi ovacionado de Pé por todo o conselho. Foram poucos os que puseram a venda preta sobre seus olhos e permaneceram sentados. Ben Adam e Susana, entre eles.
As Eminências Clericais e os Nossos Senhores de todos os Povos, bradavam, Bravo! Bravíssimo! Os Conselheiros e Conselheiras que representavam seus povos entenderam que essa era a tese que explicava porque continuariam mantendo seus bens e suas posses. Autoridades Seculares das Guildas, ficaram divididas. As Guildas Científicas e Dos Artistas Unidos optaram por vendar os olhos. Já as Guildas dos Artífices, em sua maioria, aplaudiram, sem muito entender o teor dos fundamentos, mas concordaram que o problema residia no homem, e não na propriedade. Os Mestres das Torres e Representantes das Ligas de Mercadores, Autoridades Militares e Acadêmicas enalteceram os aplausos com acenos e arremessos de pétalas. Os Senhores e Senhoras das Tribos vendaram os olhos e permaneceram em silêncio.
Edir Gramateus de Shadai, ao descer do púlpito, foi recebido pelo seu novo Rei, com um aperto de mãos, e um beijo reverencial sobre o seu anel de Alto de Sacerdote. E muitos levantaram-se para parabenizá-lo pela belíssima defesa.
Após os ânimos se acalmarem, foi chamado ao púlpito pelo Decano, Finéas, Sumidade Sacerdotal das Escolas de Mistérios do Ocidente, autoridade Sacerdotal à qual respondia a Escola de Mistérios da Cidade da Lua, em Harpis.
Finéas vestia igualmente a Toga Candida, e antes de iniciar sua defesa, prestou uma homenagem, requerendo instantes de silêncio em memória do Rei Tantalus Dágoras do Sol, O Justo, seu grande amigo. Olhando para todos os presentes, com o rosto severo que era sua marca, Fineas começou sua defesa. Os cabelos brancos, os olhos escuros e profundos. A barba farta e a voz grave, eram características àquele homem. O Patrono e Sacerdote mais importante da banda ocidental.
Sua tese intitulada “O Vivo como agente da corrupção pela natureza da propriedade, uma releitura do Livro dos Mistérios sob o enfoque da Teoria do Mundo Natural”. Fineas iniciou uma pausa dramática. Eu venho com uma tarefa que nasceu morta. É árdua. Pois vejo em seus rostos uma querela de insatisfação. As pessoas querem ter. São egoístas.
E então um burburinho tomou conta do salão. Insulto, alguém gritou. Fineas fez uma pausa, olhando para todos e continuou em voz alta. Mas a minha fala aqui, ainda que eu saiba que as vendas descerão sobre os olhos dessa audiência, é uma fala para a reflexão. E tenho certeza que, ainda que não os faça mudar de opinião nesse momento, sairão com uma semente plantada no peito. E amanhã ou depois, quando a guerra bater à porta dos Senhores, essa minha fala será recordada. E muitos hão de querer voltar atrás, compreendendo plenamente o reflexo futuro dos votos de seus conselheiros hoje. E nesse momento já estarão mudados, e meu objetivo terá sido alcançado. Quero aqui, à partir de agora, tentar convertê-los ao entendimento de que a propriedade é um fato social que causará o colapso da civilização. Partindo do pressuposto de que os vivos passaram à existência, tal qual tudo que possui volume, matéria e age no tempo, e por isso estão em igualdade no Mundo Natural com as demais coisas, é que o ato de apropriar-se fica vinculado à sentimentos hedonistas, de autossatisfação. E apropriar-se de algo, é arrebatar-lhe a vontade e a autonomia. Assim sendo, vêm os vivos e se apropriam do que querem. E se os próprios vivos estão em patamar de igualdade pela Teoria do Mundo Natural com as demais coisas, logo o ser humano como obra do mundo natural, também pode ser apropriado pela lógica dos vivos. Pensamento esse que legitima a existência da própria escravidão, que foi abolida recentemente, numa votação apertada, no Primeiro Parlatório desse Século. A teoria da Propriedade, defendida pelo Alto Sacerdote que falou anteriormente, diz que o vivo pode apropriar-se daquilo que lhe aprouver, porque a propriedade não possui valor senão aquele que lhe é atribuído pelo próprio vivo. E eu concordo com meu convivas nesse sentido. Tanto é verdade, que a prova maior disso é a própria escravidão. E porque quando uma coisa que não tendo valor em si, somente aquele que lhe é atribuído pelo vivo, ela deva ser considerada inofensiva, mesmo existindo a possibilidade de dar margem a uma coisa tão execrável quanto o confinamento humano e de todos os outros povos? Senhores, referendar a livre propriedade é deliberar sobre o fim da autonomia dos povos, é legitimar a desigualdade entre os homens, a fome, a guerra, a própria escravidão. Porque se a propriedade não é boa nem má, porque o homem não é bom nem mau, não é que se deva referendá-la porque dela não se extrai coisa ruim em seu estado natural. Mas esse parlatório é porque deve-se proibí-la, em razão de que na gênese de sua concepção ela nasce com a possibilidade de em seu nome sejam feitas as maiores atrocidades que os vivos são capazes. Senhores todos nós, que dividimos a existência nessas circunstâncias que nos colocam em par de igualdade ideológica, temos o mesmo direito de gozar a existência. E se quisermos todos, exercer nosso direito de propriedade, iremos extinguir nossos recursos vitais, levando ao colapso da vida e da própria civilização. Devemos substituir a propriedade pelo bem comum. Remunerando o vivo pelo seu trabalho, que o fruto natural daquilo que dele vem. Não podemos mais consumir esse mundo, devemos dar a ele o nosso labor. Trabalhar a terra e estender a existência, como nos foi dito por inúmeros sábios, desde o tempo da escuridão. Agradeço a atenção de todos os que pacientemente me ouviram.
Poucas palmas surgiram de seus interlocutores, que se ergueram para manifestar apoio ao Sumo Sacerdote. Uma maré de rostos vendados se espalhou pelo salão, quebrando o coração de Fineas, muito embora o resultado já fosse sabido.
No máximo vinte rostos, dentre as duas centenas que ali estavam, olharam nos olhos do adido, concordando no seu íntimo com as palavras ditas no púlpito.
Tantalus Ágoras prestou atenção em todos aqueles rostos, pedindo ao Preletor que os anotasse na folha à sua frente.
Os conspiradores contra o conspirador
Eu disse a ele, meu Rei.”- Susana estava diante de Ben, sentado aos pés da cama. Erguendo o dedo em riste, como se já houvesse repetido isso inúmeras vezes. Baixou o tom após olhar rapidamente para os lados, tomando certeza de que ninguém os ouvia.
Queria ter feito o serviço eu mesma. Mas ele disse que não: “Suas suspeitas ainda não estavam confirmadas.”, ele falou. Pediu um tempo. Que tempo? Eu pergunto... Deveríamos tê-lo feito! Nós mesmos. Possuímos meios muito eficazes. Uma vez que ele esteja morto, que é o que todos jusnaturalistas querem, nem mesmo o testemunho de conspiração levantado contra nós faria o conselho ir contra nossa palavra. Mas depois de Edir Gramateus de Shadai no Parlatório hoje… Ele receberá o apoio de todos. Afinal O Sacerdote é quem legitima o governo da Fortaleza. É o fim da paz. É o fim das igualdades. Do poder do Conselho...
Veja bem, minha Senhora, -disse Ben Adam, num tom condescendente- se persistirmos nos aliando a esses homens, que, muito embora tenham boa noção de justiça, creio que sua falta de diligência poderá nos colocar numa posição frágil. Esse rapaz, se foi capaz de fazer aquilo que acreditamos que fez, seja lá como o tenha feito, foi muito bem arquitetado. E pela dimensão dos acontecimentos ele não está sozinho. Talvez já tenhamos perdido tudo. A paz, o Conselho… Tudo! Não quero levantar falsas suspeitas contra nossos irmãos da Escolas oriental, mas creio, são conspiradores! Acredito que não tenha sido possível que tudo tenha acontecido sem a intervenção do Alto Clero da Fortaleza. A maneira como testemunhou no conselho… Seus lábios diziam uma coisa, mas a Deusa me fazia crer que era uma mentira. Se esse homem permanecer no poder, nós cairemos. Cairemos, minha consorte, pois estamos perto demais para que nosso poder não o ameace, seja agora ou adiante.
Eu penso o mesmo. Assentiu a Rainha. Nisso estamos de acordo. Mas por essa razão, não devemos, e não podemos, ficar inertes. Mantenhamos nossas aparências. Prestemos reverência ao governo de Tantalus Ágoras na luz do sol, porém nas sombras, trabalharemos para obter informações. A confirmação de sua conspiração.
Ben, mesmo contrariado embarcou na maquinação de Susana. Seus olhos estavam cerrados, e por mais que pensasse em dizer não, era um sim que saia pela sua boca. E mesmo um sim sem convicção foi suficiente para a Sacerdotisa.
Sunamon foi chamada com muita urgência. Foi pedido que selecionasse cinco aprendizes da comitiva. As mais fiéis, mais devotas.
Está decidido, elas ficarão em Coptset.- Falou a Rainha para si mesma no quarto, tentando convencer a si de que aquela era a melhor coisa a ser feita.

Dil’enga Nzambi
Uma corrente muito grossa prendia seus pés, e se estendia acima, aprisionando as mãos. Iam por aquele corredor de pessoas rindo, as agarrando em meio à poeira. Um soldado ao ver as muitas risadas, ia as empurrando, como tocasse o gado. Se não andassem rápido, logo uma chicotada vinha por cima. Seria levada para as Terras de Baixo, ela já  sabia. Para onde todos vão.
Depois de lhe apertarem o rosto, conferirem seus dentes e suas intimidades, recebeu uma marca em ferro quente nas costas e foi empurrada para o centro da aldeia, junto com as outras. Muitas estavam ali. Suas inimigas das tribos vizinhas. As fortes, as líderes, as mães, as guerreiras, as sacerdotisas. Todas ali de joelhos, quebradas.
E veio o acorrentador. Apontou duas mulheres e gritou na direção da choça de onde saíra. De lá saltaram outras duas, também sob o jugo do ferro. Iam lhes segurando dois soldados grandes, de lanças nas mãos.
E perguntou às mulheres se reconheciam àquelas duas que estavam próximas, ali de pé. E ficaram em silêncio. O acorrentador segurou uma delas pela queixada e virou seu rosto, havia ali, debruada na pele, a marca das Ashoi: pontilhados grandes a lhe enfeitar o cenho. E foram postas no meio gente bravia, que prontamente lhes arremessaram pedras até a morte.
Ele falou para todos, e embora somente a filha de Makeda compreendesse o que era dito, a expressão das demais dizia que sabiam o que lhes esperava. O acorrentador falara que isso era o que aconteceria a toda mulher que pegasse uma lança, que fosse marcada como uma Ashoi. Ao cinco matar um animal para comê-lo. Aos sete a lança, o arco e a espada. Aos dez a primeira corrida. Uma luta brutal no deserto. Uma menina e uma leoa. Depois, aos quinze, a navalha fria sobre a areia. Senão uma Ashoi, uma Kantake, uma Gelénde, uma Ishi. Todas elas com suas ondas indo e vindo, com suas flores brotando nos corpos de areia. Primeiro o sangue e a ferida, depois viravam flores, ondas, campos de pasto e animais em seus lugares.
O acorrentador aproximou-se e sacudiu suas correntes: “Filha de Makeda, escrava em Zor”. Disse olhando com ar cínico nos olhos da jovem. Puxou-lhe das tranças. O rosto empanado na areia e aqueles grandes olhos negros duros, retribuíram uma grandeza que nunca vira o acorrentador. Apesar de toda a humilhação ela permaneceu. E retesou forçosamente a cabeça, resistindo ao puxão. Ele sabia quem ela era. “Mino! Mino!”, uma prisioneira gritava.
Aquele era o homem que capitaneava muitas das destruições patrocinadas pelos Senhores das Terras de Baixo, a ruína de sua casa.
Makeda lhe dissera: “Eles querem os homens para soldados; as mulheres para todas as outras humilhações. Do chicote ao ferro quente, todas vão sucumbir do outro lado, onde as vagas quebram.”
Estava ali o homem que procurava, e a razão de aceitar os grilhões sem lutar até a morte. E quando ele afrouxou a mão, ela desvencilhou-se, enrolando os punhos dele com as correntes, e o jogou no chão. Caiu de costas. Pulou direto na cabeça, passando o grilhão em volta do pescoço dele e pôs os pés contra seus ombros. Depois do traque, todos ficaram em silêncio. Vinha esperando por esse momento há muito tempo. Um dos soldados aproximou-se, mas a filha de Makeda não se moveu. O soldado da tribo até hesitou, mas quando a mulher investiu sobre ele, assustado, enfiou a lança bem no olho esquerdo da cativa. Então todas que haviam vibrado com a morte do acorrentador, até aquelas que gritaram “Mino”, diminuíram naquele instante, voltando a serem cativas.
Ela continuou, pois haviam mais acorrentadores. Ela sabia disso porque  havia  um navio ancorado na costa, e onde quer que todas tenham sido levadas, era por ali que seguiam.
Lá, no mar havia um navio, e também um destino e uma promessa, “Makeda...”, ela pensava com esperança.

O Circo das Facas
O comportamento de Tantalus Ágoras era notoriamente anormal. Apesar das ocorrências recentes em relação ao seu pai. Ele tivera tempo e disposição para organizar um grande Festival da Roda: feiras de comércio nas ruas, tendas de liturgias, dançarinas, mágicos e pantomineiros, e o espetáculo principal, uma exibição do Circo da Facas, montado na arena aberta, para todos os nobres e visitantes apreciarem.
Estava sentado numa mesa, em posição privilegiada. Muitas tochas iluminavam a arena, naquela noite que antecedia ao Havdalá. Havia festa, risadas, bebidas e uma grande fogueira, em meio à noite mais escura.
E de fato o novo Rei divertia-se. Bebia, conversava com seus convidados, como nunca fizera. Depois da noite do Conselho Clerical, passou a usar uma máscara no rosto, muito simples, feita em couro, para ocultar e proteger os ferimentos.
Ele era um homem muito educado, apesar de sua inclinação para evitar os toques e gracejos das pessoas.
Jamais apertava a mão de alguém, sem que a sua estivesse enluvada. E em nenhuma ocasião oferecia companha a uma dama. Preferindo manter distância das moças que lhe cercavam.
Seus interesses giravam em torno da História da Guerra, estratégias militares. Negócios, como o comércio e ou alianças políticas.
Nunca fora visto galanteando qualquer cortesã.
E o mais estranho no comportamento do Jovem Governante, era o que se dizia dele sobre ficar, durante longos períodos, encarando as chamas, nas centenas de lareiras espalhadas pela Fortaleza.
Não foi à toa que mandou que fosse construída, uma fogueira do tamanho de doze corpos, encimado por um sol finamente esculpido em madeira e alabastrino, untado em óleo.
No início das festividades vespertinas, acendeu a chama ele mesmo. E a luz de todo aquele fogo, iluminou os espaços, afugentando as escuras vagas que precediam o Havdalá.
À estrela maior da manhã, meu pai, Tantalus Dágoras do Sol. Que essa fogueira queime tanto quanto a chama da glória que se perpetuará em meu reinado. Pronunciou ao acender a pira.
Mas naquela noite ele estava especialmente alterado. Ria muito e alto. Visivelmente desestabilizado.
A filha do Nobre Mercador de Saigão se aproximara, ele que estava cercado por seu Mentor, Edir Gramateus de Shadai, e por alguns Nobres, que vinham lhe desejar êxito na governança. Ela sussurrou algo, sorrindo com malícia, muito atrevidamente, em seu ouvido. Algo que o deixou sério e sem reação. Tirou-lhe o riso do rosto, e fez com que fosse ignorada de forma severa.
Os fogos, em meio à escuridão do céu, anunciaram a chegada do espetáculo.
E todos se acomodaram para apreciar a atração circense, assim que o cerimonial a anunciou.
Um homem com uma longa capa e capuz negros, carregando uma tocha numa mão e um cetro na outra, caminhou lentamente até o centro da arena. Muitos cochichos e interjeições de ansiedade foram ouvidas na plateia atenta. Lá no meio ele cravou o cetro.
E se houvesse um homem capaz de evitar a morte?- Disse o ator, numa pergunta retórica.- E se esse mesmo homem não pudesse ser morto por qualquer faca ou arma feita pelos vivos?
Naquele momento um homem de cabelos vermelhos, uma criança e uma mulher muito alta, saíram debaixo do manto que protegia o interlocutor. Seus corpos estavam completamente pintados de branco.
“Na noite de hoje todos os presentes testemunharão em vivo, as habilidades dos maiores especialista em armas brancas de todo o oriente.”- Ele colocou a tocha em um suporte próximo.
Três músicos acompanharam a apresentação, um no tambor, um na gaita e outro no na rabeca.
Os artistas trouxeram para dentro do palco um aro de aço de meia envergadura. Enquanto exibiam-se fazendo contorcionismos, o homem encapuzado, retirou facas de suas mangas, as cravando ao redor do aro, de forma que as lâminas ficassem viradas para o centro. Os contorcionistas, arremessaram-se através do círculo, sem sofrer qualquer injúria. E foram muito aplaudidos. Antes de retirar as facas do aro, o apresentador desenrolou uma longa fazenda de seda de seu punho, e desencaixando as facas, as deslizava suavemente pelo tecido, que ao menor toque rompia. Estavam todas, muito afiadas.
As palmas intensificaram. O círculo foi retirando e uma caldeira de ferro, com rodas, foi levada a arena. Debaixo da escuridão do capuz, surgiu uma luz, então uma pequena esfera de fogo atingiu o tonel. Um baque surdo, seguido de uma explosão. A caldeira estava em chamas. Uma das contorcionistas puxara lanças com pontas finas debaixo do manto do ator. Cada qual mergulhou a sua dentro do tonel, e elas rapidamente pegaram fogo. O apresentador abriu a boca e pegando uma lança por vez, as colocou goela adentro. Engoliu o equivalente ao tamanho de um braço, extinguindo as chamas.
Foi ovacionado.
Tantalus levantou-se da cadeira, maravilhado com as chamas.
Após, o artista fez o mesmo com as facas que pusera dentro das mangas.
Muitos aplausos, principalmente do Rei.
E a apresentação evoluiu, até seu ponto máximo. Uma roda de madeira foi trazida para o centro da arena. Uma das atrizes estava presa ali, pelos pés e pelos punhos, de ponta cabeça. Várias facas já haviam sido atiradas, e todas evitaram o corpo da mulher.
O atirador pegou a tocha e se dirigiu à grande roda, colocando fogo nas suas bordas. O anteparo foi impulsionado e começou a girar. O artista se afastou, e incendiando as facas, as arremessou, uma a uma, enquanto a mulher girava muito rapidamente.
A plateia levantou-se para aplaudir o atirador. E ele devolveu com uma reverência, enquanto rumava à grande roda, parando a estrutura. Demonstrou que ela estava ilesa. Foi supreendido quando Tantalus pulou a mesa e correu em direção à Arena. Segurou a mão do Homem e a levantou, pedindo mais aplausos do público. E foi conduzindo o artista na direção do tonel.
Depois de algum tempo, o Rei acenava para baixo e pediu a atenção de todos.
Fez um gesto dobrando o tronco com o braço à frente, como se estivesse se apresentando ao público. Imediatamente mergulhou uma faca no óleo, que tirara muito rápido da manga do artista, arremessando-a com força e velocidade na direção da mulher. Um grito estridente, a lâmina lhe entrou com força na perna, mas ainda estava em chamas, e ela se contorceu, tentando livrar-se das amarras. O rei ria tanto que se curvou, com a mão na barriga. Seus companheiros a tiraram do anteparo, e a moveram na direção de um Sacerdote que vinha ampará-la.
Milhares de olhos atônitos brilhavam sob a luz das chamas, acompanhados de expressões de horror e incredulidade. A plateia, como se aquilo fosse um novo espetáculo, vaiou.
O rei continuou rindo, ignorando total e complemente as reações da assistência.
O apresentador que estava ao lado de Nosso Senhor, fora esquecido. E ninguém reparou que ele puxava da parte superior do cetro que cravara no chão, uma adaga fina e de um metal verde brilhante.
E pelas costas do Rei, o estocou.
Gritos por todos os lados, e uma convulsão entre o público. Pessoas imediatamente começaram a se deslocar.
A lâmina atravessou a armadura, como se cortasse uma manteiga. Seus dedos ainda tocaram a ponta afiada que saia do seu ombro esquerdo. Sem entender, afinal, o que havia acontecido. Antes de cair, ainda virou-se para mirar o algoz, porém ele desapareceu no ar, deixando as vestes vazias no chão da arena.

O Banquete da Roda
O Banquete da Roda estava iniciando, ainda que ausente o Rei; recuperava-se do ferimento da noite passada.
Ele mesmo deixara instruções claras de que as festividades não fossem canceladas.
Mandara reforçar a segurança, e fizera uma aparição breve, estimulando que todos se divertissem e aproveitassem o banquete. Estava terrivelmente pálido, e pronunciara apenas algumas palavras antes de voltar para seus aposentos.
Não fosse o socorro prestado pelo Sumo Sacerdote Fineas, estaria morto. O homem certo, no lugar e na hora certos.
Foi interpelado mais tarde por Varr Bar , do porquê curara o homem, que se mostrava claramente uma ameaça à paz. Fineas , pensara em responder que essa era sua missão Divina ou que aquele era o filho de seu grande amigo, mas ficou em silêncio, refletindo. Talvez, Varr, tivesse razão. Se o homem viesse a se tornar um Senhor da Guerra, talvez tal ato tenha provocado a morte de muitos no futuro. Poderia com isso ter corrigido um grande erro que cometera muitos anos atrás.
Fineas pensou muito nas respostas que encontrou na sua viagem.
Susana se desviara dos que vinham ter com ela, deixando com muita descrição, o salão e seus convivas. Pedira ao guarda pessoal do Rei que lhe facilitasse uma visita, com vistas a utilizar suas habilidades de cura em benefício do Monarca.
O guarda foi duro. Porém, o Preletor se aproximou, conduzindo-a à antesala privada do Rei.
Ele entrou, e, rapidamente, a porta se abriu.
Tantalus Ágoras estava na cama, com uma mordaça na boca, enquanto dois sacerdotes aplicavam emplastados no ferimento.
Ela se aproximou. Pensava em algo, uma oportunidade de ficar sozinha com ele. Pingar misericórdia dentro no ferimento.
Senhores, o que há nesse emplasto? Ela remexeu entre as vasilhas que estavam sobre a mesa vestal. Um é tançadeira, o outro é beladona, para acalmar Nosso Senhor, disse Hermínedes. Mas já lhe ministramos outros elixeres, para prevenir que enfraqueça.
Não, disse ela, é necessário interromper o escurecimento. Fazer a selagem com fogo, para evitar morbidez.
Tantalus Ágoras se voltou com desespero, ao ouvir a Sacerdotisa, grunhiu, sacudiu a cabeça.
Me dê a espada dele. O Sacerdote acenou para o Preletor, que foi até a parede e lhe trouxe a arma, conforme ordenado.
Susana segurou com dificuldade a espada pesada, forcejando os músculos do antebraço, para erguê-la. Colocou a ponta no fogo da lareira. E dando as costas para os demais, escorregou o minusculo frasco de misericórdia da faixa em sua cintura. Umedeceu a ponta dos dedos e muito rapidamente o pôs de volta no lugar. Ficou ali, observando a imagem da espada se distorcer no calor das chamas.
Quando a extremidade ficou enegrecida, presumiu que a espada estava quente o suficiente.
Remexeu o ferimento com a mão, pedindo que todos o segurassem com força, e colocou a espada sobre a injúria. Seus músculos estremeceram, o rapaz gritou muito alto antes desmaiar.
Susana repousou o cabo da espada na sebe da lareira, e foi até o Rei. Onde rezou. Com muita sinceridade, pedindo perdão à D'us pelo crime que cometera. Ela levantou com os olhos cheios de lágrimas. E passou as mãos sobre as vistas, acidentalmente.
Hermínedes ficou compadecido de Susana. E insistiu em acompanhá-la até o salão.
Já no meio do caminho suas mãos ficaram trêmulas. E seu estômago começou a embrulhar.
Suas pernas perderam a firmeza, tudo escureceu e seu corpo rodopiou na direção das escadas.

A cerimônia do Havdalá
O banquete seria servido, mas não antes da cerimônia da chegada da luz, recitando o Havdalá.
Todas as luzes foram apagadas. E somente três velas permaneceram acesas. Então todos os convidados elevaram suas taças às alturas, e recitaram em Bo:
D'us é minha salvação; a escuridão não temerei, pois o Eterno é minha força e canção, e se de lá eu vim, para lá retornarei. Portanto, beberemos à salvação da luz dessas estrelas, e no dia da escuridão, lembrarei sempre que ela não é o fim, mas um eterno recomeço. A escuridão é nossa fortaleza, para toda eternidade. Louvado é o homem que confia em Ti. o Eterno. Responde-nos, ó Rei, neste dia em que chamamos, se para os vivos há luz, alegria, júbilo e glória?”
Mas o Rei não estava ali para responder. Então o Sacerdote Fineas emendou: “Sim, enquanto estiverem sob minha proteção e bebendo em memória de D”us.”
E todos ergueram seus cálices e beberam juntos.
E quando as lamparinas foram acesas, o banquete foi posto nas mesas.
Hermínedes se aproximou de Ben Adam de Quran e falou algo em seu ouvidos. Gesticulando com muita ênfase, em meio ao alvoroço. O que pôs o bardo a deixar o salão com pressa, em direção às escadas na ala oeste.
No quarto do próprio Herminedes, deitaram Susana na cama. Ela tremia muito. Ben, viu que seus lábios e o interior da boca estavam azulados. Um cheiro característico exalava da garganta. Estava gélida e inconsciente. Misericórdia.
Pensou o Bardo. Talvez não haja mais tempo. Acônito. Ele pediu à Herminedes. Dê-me acônito.
O Sacerdote arregalou os olhos. E moveu-se, indeciso e desajeitado, de um lado para outro, lembrando-se onde colocara sua caixa de antídotos.
Acônito, acônito, acônito, repetia. Aqui está. Aconitum.
Ben verteu o frasco na boca de Susana. E alcançando-o vazio para o bardo de Saigão, perguntou, com uma sombra no rosto. O que aconteceu?
A Rainha, ela caiu, assim, de repente, no corredor. Estive com ela o tempo todo, ajudou a tratar Vossa Majestade da Fortaleza do Sol. E depois saímos dos aposentos reais e ela passou mal…
Então os dois fizeram silêncio. Ben Adam fechou os olhos, compreendendo a situação.
Hermínedes recuou. Indo em direção à porta.
Não. Disse Ben.
Mas o Rei… gaguejou o Sacerdote.
Dê-nos uma vantagem, ele pediu.
O Sacerdote assentiu com a cabeça. Esperarei que ela recobre os sentidos. E então vocês deverão partir. Vou me reportar à Edir Gramateus de Shadai, tão logo saiam. Isso se não descobrirem o Rei antes, nesse caso não poderei fazer nada. Não sou um conspirador.
Obrigada, disse o bardo.
Ele deitou Susana na cama, e tomou um jarro com água que estava na cabeceira. Orou alguns instantes com as mãos imersas.
A água começou a fluir para fora do jarro, envolvendo lentamente Susana. Ele regeu seus movimentos como um maestro, conduzindo ambos pela janela. Hermínedes acompanhou os dois, sumindo na noite. Com muito pesar.
Ele pegou o frasco vazio e escondeu dentro do seu baú, bem longe dos seus antídotos.
Então se recompôs e foi na direção da porta, avançando para os aposentos do Rei. Tudo estava calmo, só foi conferir. Tinha ele mesmo ministrado o acônito para Tantalus Ágoras, minutos antes da Sacerdotisa entrar. Afinal pensara que ela não seria tão pouco prudente, colocando as mãos nos olhos. Sentia o cheiro de misericórdia à milhas de distância: já entra queimando, sem nem mesmo ter entrado ainda.

Uma tumba em alto mar
Três dias sem beber água, embora por água estivessem cercadas. Quando descia alguém, era para levavam uma das cativas. Nunca mais voltavam. Havia gritos, barulho de luta. Depois silêncio e risadas. Mas nunca mais voltavam.
A filha de Makeda ficou feliz quando chamaram-na de Mino. E ela sabia que ouvir aquilo era uma grande responsabilidade, todas elas Dil’ngas em seus povos, todas elas guerreiras. E apesar das diferentes daquelas que antes já haviam batalhado umas contra as outras, estavam ali como iguais, e precisavam de alguém forte para liderá-las. “Mino, nikisi Makeda. Dil’nga Nzambi!, concordaram no silêncio daquela tumba flutuante.
Não se conseguia sair do porão. Era a fraqueza da fome e da sede. Os grilhões arrebatadores. A insurgência reprimida com mão pesada, a ferro e lâmina. “Trinta tinham que chegar.”, era o que diziam. Eram quarenta. Havia muito com o que se preocupar. Toda vez que a porta abria, não era o de beber que vinha. Não era o de encher o corpo. O que vinha era chumbo, e fala suja. Ofensa pesada e injúria gratuita. Nem se queria mais que a porta abrisse. Mas pensar em Makeda a mantinha forte, e ela incentivava às outras.
A filha de Makeda rastejou até onde podia. Queria alcançar Keto, que já não se mexia muito, e suava sem parar. Seu rosto estava tomado por bolhas, com as bordas queimadas. Há cinco noites havia chovido, e alguma água escorria pelo assoalho, Uma delas achou um capacete velho, e fez dele um coche. Mas já estava secando, e Keto estava doente.
Mas antes de Keto foi Eawe. Então Eawe morrera, embora seu corpo permanecesse ali.
“Keto, vamos para casa. Vamos para nosso lugar.”- A doente sussurou alguma coisa. A filha de Makeda aproximou-se e segurou-lhe a mão, esticando-se o máximo que podia. Então ela suspirou de novo “Mino, nossa mãe.”.
O esforço esgotou a moça, que retornou ao seu lugar.
O olho furado doída muito, e uma delas fez uma atadura com uma manga de linho, e rodeou o lado esquerdo da cabeça da filha de Makeda.
Já houve uma Dil’nga caolho.” - Disse Axum sorrindo, aposto que você será a segunda. Depois mostrou à filha de Makeda a tábua solta que havia retirado do assoalho e que passara muito tempo afiando. Etô tirou o grande pino de ferro que estava cravado madeira. Vinha raspando-o contra a corrente há semanas. Deixara o prego fino, feito uma navalha.
Faça o que lhe disse.
Tem certeza?”- Perguntou Axum, com o prego sobre o tronco do polegar da filha de Makeda.
“Tu conheces alguma Dil’nga com nove dedos?”, -perguntou a moça.
Nenhuma.”- respondeu Axum.
Então serei a primeira.”. E a madeira desceu forte sobre a lâmina improvisada.

Nosso Senhor da Fortaleza do Sol
Os Senhores já conheciam os Jardins de Pedra da Fortaleza do Sol?”- Tantalus Ágoras chega interpelando os seus convidados, que encontravam-se sentados à sombra de um pergolado de pedra, coberto com um linho branco. O vento batia gentilmente nas sobras do tecido, fazendo-o vagar de um lado para outro. A mesa de desjejum, de três corpos de comprimento, era farta. Uma variedade imensa de frutas Ocidentais e Orientais. Leite de amêndoas. Carne de carneiro. Tamargueiras os circundavam. Havia dois criados servindo os seis convidados. E mais os guardas pessoais do Rei. Dois prestantes abanavam os convivas, para afastar insetos, comuns na região. Os jardins ficavam no terraço do castelo.
O Jovem Rei, com uma simpatia incomum, começou um diálogo com os convidados: “Senhores, estamos a uma altura de cerca de sessenta corpos da linha do rio. À frente, antigamente, ficava a ponte da aliança, que ligava a cidade gêmeas de Harpis à Coptset, através da Fortaleza do Sol.”
Ele levantou-se um pouco da cadeira para apontar na direção do Templo da Lua: “A ponte já não existe desde tempos imemoriais, exceto pelos seus restos, que jazem no leito do rio. Então essa Área, foi todas readaptada pelo Rei Tantalus Mágoras do Sol, meu consanguíneo. No sexto reinado da Dinastia, foram trazidas pedras das cadeias montanhosas que os Senhores veem ali, do corredor dos Chacais. E também do deserto ao sul, através do rio, foram trazidos esses megalitos; as mesmas fundações que ergueram os decadentes aquedutos de Harpis, para compor os elevados desse Jardim. Neles foram esculpidos doze lagos, apresentando o maior oito corpos de largura. Cuja água é trazida até aqui através de um complexo sistema de engenharia de êmbolos, e com o emprego de bombas movidas a tração animal. Dois lagos com exemplares de raros de Kolbis não bípedes, pássaros de diversas regiões e uma extensa composição de flora, disposta de forma muito interessante e com grande valor de beleza. Depois de todos essas gerações, minha família tem aperfeiçoando essa construção. E hoje os senhores aqui estão, desfrutando essa vista privilegiada. Tantalus pega uma maçã e dá uma mordida, se coloca á frente da mesa , de costas para tudo aquilo.
Assim como minha família aperfeiçoou esse paraíso, eu estou aqui, como o legado da força militar e estrategia política fornecido pelo refinamento do sangue da minha linhagem, de gerações e gerações. Fui treinado por Mestres de excelência nas artes da guerra e da política.
Eu os trouxe aqui hoje para que possamos falar, justamente, sobre as relações entre nosso territórios. Como os senhores bem sabem, protrocinei a promulgação do entendimento majoritário da Lei de Propriedades. E vou possibilitar em breve que seja revogada a lei da paz, instituída pelo Tratado da Última Vila Mais ou Menos ao Norte para Ações de Paz, que impede atos de guerra dos povos, quando o conselho Clerical não deliberar pelo estado Geral de Guerra.
Vejam que somos dominados pelas entidades religiosas, pelos Conselhos, Guildas, Magius, entre outros. Nós Senhores Governantes, temos nosso poder limitado a todo instante pela atuação das forças clericais. Eles nos dizem no que acreditar. Como ordenar que nosso povo se comporte, como, quando e quanto custarão as taxas, serviços e impostos. A remuneração pelo trabalho do vivo. Ficamos completamente paralisados por todas as regulamentações que essas entidades nos impõe. Nós possuímos trigo, possuímos água, ouro, minérios, riquezas científicas e nosso povo não pode usufruir de tudo isso, não podemos querer mais. Não podemos querer ser medíocres. Porque as escolas de mistérios acreditam a guerra não é uma manifestação legítima? É a manifestação de poder da natureza! Vocês veem aquela piscina ali na frente, se for jogada uma corsa ali dentro… Ali há um crocodilo de três metros, ele vai comê-la. Essa é a lei da natureza. Não podemos deixar que nos imponham a ideologia dos fracos, do prostrados, dos perdedores. Nós não somos iguais a eles. Somos melhores. Por isso estamos aqui, vendo o mundo de cima. Senhores, eu proponho que deixem-me guiá-los para uma nova era. Onde seremos reis de verdade, governaremos sobre o futuro. Assinem a moção de revogação.””
Tantalus deu a volta por trás da mesa.
O Senhor da Ilha de Bar, Varr Bar, bateu na mesa.
“Filho, isso é um absurdo. Se eu faço guerra perco homens, meus negócios não prosperam. Preciso de baleeiros, não soldados. A guerra é como cavar uma grande catacumba, e depois querer viver nela, filho. Não nos traz nada de bom. Vejam que o que ele…”. Então Tantalus Ágoras o pegou por trás com um garrote, enquanto o homem se debatia na cadeira. Ele o subjugou com facilidade, puxando suas mãos em direções contrárias. O Senhor ainda tentou agarrá-lo, colocou o dedo no ferimento do Rei e apertou com força. Mas Ágoras não soltou. Seu cabelo de desprendeu da mascara e ficou esvoaçando, enquanto esganava o homem, entre as fazendas de linho, que deslizam ao sabor do vento, alheias àquela brutalidade. Ninguém interferiu naquela cena, que demorou um tempo considerável para acabar. Tantalus tinha a camisa manchada por uma grande quantidade de sangue. Mas sentou na cadeira, e ficou admirando a vista com seus convidados. Então ele irrompeu o momento de contemplação, e colocando os cotovelos em cima da mesa fez um sinal para o Prestante. Foi colocada uma cópia da moção, tinteiro e pena na frente de cada um dos cinco senhores. Edmundo de Ferro, Senhor do Vaudeferro e de Passo da Balsa. Endro Represagorda, Senhor de Terralta, Represagorda e de Porto das Gaivotas. Xing Woo, Senhor da Baía de Ouro e de Tocaspretas. Doutor João do Vãodebaixo, Prefeito Geral da Última Vila Mais ou Menos ao Norte. E por fim, Alan Costarreal, Senhor das Terras Ocidentais desde Solar das Laranjeiras, Passando por Mataguda, até Penhascoforte, onde fica a Escolas de Mistérios da Lua arregimentada por Fineas, Sumo Sacerdote Ocidental.
O Rei deu uma fungada por debaixo da máscara, um cacoete seu: “Vejo que concordam comigo.- Serviu-se com carneiro frio.-Não sei dos Senhores, mas eu estou faminto.”

As sete atalaias
O velho coçava a cabeça sem saber onde largara a ferramenta. No meio daquela oficina, naquele dia, não poderia encontrá-la com facilidade. Todas as encomendas, todos os projetos em que vinha trabalhando estavam ali. Alguns espalhados, outros por começar. Outros mais adiantados. E outros longe do fim.
O seu mira-luas. O maquinador de tarefas. O ousado morcego-barco. Estava tudo ali, mas não havia nada, ao mesmo tempo. Isso porque parecia uma grande e única bagunça, na qual somente o velho Mestre Agenor conseguia se guiar. Uma bagunça organizada, dizia ele.
Mas ele estava nervoso, com a tarefa que recebera. Bons amigos, pensava. Mas quais bons amigos planejariam metê-lo numa confusão tamanha?
Sete atalaias, murmurava ele sem parar. Sete atalaias. Uma para as profundezas do mundo. Outra para as ilhas distantes. Uma atalaia para o deserto intransponível e uma atalaia para os ares. Uma atalaia para o fogo e uma última atalaia, para a vigília final, quando todas as outras falharem no seu dever.
Um louco pediria isso. Seus inimigos. Sua velha esposa ranzinza como a minha. Seus amigos não. Era um trabalho de uma vida, e a sua, vinha sentindo, estava mais para perto do fim. Setecentos anos bem vividos, afinal. Quatrocentos e vinte filho (na última contagem), nove esposas e milhares, e centenas de incontáveis invenções maravilhosas. Mas era sempre a mesma conversa, a guerra, o rei mau, a pobre rainha, e rei honesto. E ele já estava comprometido com uma ideia mirabolante, sem nem mesmo ter dito sim. Nesse mundo de hoje abusa-se dos velhos, pensava.
Estava magro, muito magro. As pernas tortas, muito tortas, e a cada ano mais baixo. Ou seria sua bancada trabalhando a madeira?
Então um estalo. E batidas ritmadas vieram aos seus ouvidos. Os pelos saltavam das orelhas, fartos e grisalhos. O barulho! Certamente vinha do acelerador de pensamentos. Estava baqueando novamente. Encostou a cabeça ao lado do aparelho, mas definitivamente o som não vinha dali. Não, não, pensou. Seria o ferreiro autômato? Onde ele estaria… Ah, só pode ser o coça-pansas! E as batidas continuavam. Girou a manivela do aparelho e deu uma bela coçada nas costas. Era muito relaxante! Mas não era ali o barulho, definitivamente.
Foi quando a Senhora Arlinda gritou lá do fundo da oficina: Atenda a porta, Agenor!
Eram visitas, afinal. Sim, meus velhos amigos.
Ele saltou de um banco e foi balançando, de um lado para outro, para atender a porta. E o fez ele mesmo, a despeito das cinquenta invenções que havia construído, somente para atender a porta. Fê-lo pessoalmente, afinal aos amigos, recebemos nós mesmos, com o prazer do reencontro.
Abriu a porta e abraçou com muita alegria o seu mentor, o velho Decano, Mestre Egídio.

Medo em casa
Estavam à mesa, em silêncio, há um bom tempo.
Ben Adam comia um figo fresco, sorria e procurava tocar Susana a todo instante.
A Sacerdotisa tinha os olhos molhados, observava, ali da varanda, Bet conversando no jardim.
Minha Rainha, precisa comer.
Seus olhos se moveram para a mesa e depois retornaram para a cena na grama. E lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Susana, sem que ela movesse um músculo. O bardo a tocou no braço, encerrando um carinho e preocupação. Ela ficou indiferente, e continuou ali parada, sem comer nada.
Aquilo o deixava desesperado. Aquela letargia, uma tenaz morbidez que não a abandonava desde o incidente na Fortaleza do Sol. Sua saúde estava ótima, mas seu espírito fora quebrado.
O fato de não saber se Hermínedes os havia dedurado estava consumindo a força da esposa. Não havia paz naquela mente, ficava sob a sensação constante de que, a qualquer momento, Hapis seria invadida. Seriam todos mortos ou aprisionados.
Mas os soldados não vinham. Ninguém chegava dizendo ordens do Rei da Cidade Gêmea Oriental. Sequer um perdigueiro. Só um silêncio.
Hermínedes teria os entregado à Edir Gramateus de Shadai? Teria realmente os entregado ao Rei? Ou teria voltado para casa, guardando como um trunfo, a informação de que a Rainha conspirou, junto com o Sacerdote, para envenenar Tantalus Ágoras enquanto este convalescia?
Ou o Rei da Fortaleza do Sol já era sabedor de tal fato, e resolvera ignorar momentaneamente seus confrontantes reais?
Toda essa dúvida era como um veneno.
Veja, Susana. Vamos seguir nosso caminho. Deixe que tudo seja. A despeito do que quer que tenha ocorrido, não podemos fulminar nossas almas com tamanho sofrimento. Estamos esgotados. Veja, você esta bem, viva. Nossa filha caminha sobre a grama e ignora toda essa realidade. Vê como é feliz!
Ouvindo aquelas palavras, inspirou tão profundamente que seu peito tremeu. Ela segurou o fetiche do colar entre as mãos, e soltou o ar todo de uma vez pelas narinas e pela boca: “Ai, ai…”
Ergueu a cabeça minimamente, e falou, muito baixo: “Ela irá morrer, todos iremos morrer.”
Os músculos de Ben congelaram, e ele ficou sem reação. Em seguida segurou Susana pelos braços, de frente para si, e a sacudiu: “O que foi que disseste? Perdeste o juízo? Resolva isso em seu íntimo, siga a vida!”
Então ela chorou copiosamente: “Eu tentei matar um homem em seu leito de morte. E este homem é herdeiro de um grande amigo meu. E pedi perdão para D’us, ali, a seus pés. E o que foi que ele fez? Me me pôs à beira da morte, e depois me deu uma chance. Uma oportunidade para que eu me redima da heresia que cometi.”
Ben Adam, parou de sacudí-la. E ficou perplexo e ao mesmo tempo revoltado com o que ouviu.
Isso não faz sentido. Vamos todos para o mesmo lugar, bons e maus. Você o envenenou, e o resto foi um acidente. Um acidente, Susana! Não há culpados. Me prometa que vai melhorar. Eu lhe prometo que vou resolver tudo isso. Farei algumas viagens, procurarei aliados contra essa insanidade que está crescendo.
Ela voltou ao encosto, como se não houvesse escutado seu marido. Prostrada, na mesma posição em que estava. As lágrimas corriam pelas suas bochechas. Ela olhava para o jardim, na direção daquela cena bucólica, mas seus olhos estavam olhando para dentro.

O tumbeiro amotinado
Não foi na primeira batida que a navalha improvisada tirara o dedo da filha de Makeda. Duas, três vezes Axum teve que bater para extirpá-lo. Fizeram-na morder um couro para livrá-la dos gritos. Mas assim que saiu fora, ela mesma arrancou as correntes.
Ficou ao lado da porta, com a navalha na mão. Enquanto o barco adornava gentilmente de um lado para o outro, uma luz atravessava as frestas do madeiramento do convés. Atingindo o rosto da mulher. Talvez a única luz que tenha a tocado em semanas.
E as mulheres agitaram-se, com a pouca força que lhes sobrara, na intenção de chamar o imediato. E ele veio. Tão logo entrou, sem ver a cativa que se ocultava nas sombras, e com o fundo do olho cheio de luz do sol, teve muito rapidamente a garganta cortada.
A filha de Makeda pegou as chaves do gibão e soltou alguns grilhões.
Jogou a lâmina para Axum, e pegou a adaga que estava na cintura do oficial.
E ficaram atrás da porta esperando que mais alguém entrasse. O corpo do marujo foi arrastado para a escuridão, mas seu sangue permaneceu no chão.
Então, pés apareceram nas escadas. Um andar cauteloso.  Mais dois atrás desses.
Tão logo havia corpo suficiente abaixo do assoalho, a filha de Makeda puxou o homem e o jogou para Axum, pulou sobre as escadas, para evitar uma fuga, enfiando  a adaga nas tripas do segundo marinheiro.
Mas havia um terceiro, no alto da passadela, e saiu gritando: “ Motim no porão!”. As armas dos homens foram para as demais. Uma trava foi oposta à porta, calçada nas escadas, para que pudessem se organizar.
Prestem atenção,- disse a filha de Makeda, enquanto arrancava uma nesga da roupa do imediato, e improvisara uma atadura na volta da mão ferida.- eles virão com força para cima de nós. Mas aguentamos como leoas até agora. E assim vamos permanecer. Quando entrarem os matamos e depois seguimos. Se ergam como mulheres livres, porque é o que somos.”
Puxou o cabo de uma vassoura e usou a adaga para apontá-lo. Essa era a arma delas.  Axum arrancou uma ripa que tapava a fresta do piso do convés, Dil’nga cortou uma longa trança sua e amarrou uma ponta a cada extremidade da ripa, envergando-a. Um arco. Etô quebrara um barril, e rapidamente fileteava a madeira com o facão de um dos marujos mortos, fazia uma flecha rústica. Zenobi tomou o arco, que fora treinada para usar e era a sua melhor arma.
A filha de Makeda ficou em silêncio atrás da porta, espiando. Então o madeiramento das escadas fez barulho, e a sombra de um homem contra o sol caiu sobre seu olho, e quando estava próximo o suficiente, ela puxou a barra de madeira e a porta abriu. Usando a própria barra desviou a espada do homem e perfurou seu abdomem com a lança.
E saiu para o convés. A luz era forte e  seu olho estava sendo ferido. As demais também subiram e em poucos segundos deram cabo de quatro tripulantes. Três se jogaram ao mar. O capitão ela encontrou na cabine, quase morto pela peste. Então deu as costas e saiu de lá. Quando retornou para o pavimento aberto e seus olhos puderam ver através dos raios alaranjados, havia uma cordilheira cinza muito próxima. Que nunca vira em toda sua vida.
Axum aproximou-se: “Desci na escuridão novamente, Keto… Keto não respira.”.
Dil’nga Nzambi pensou alto olhando aquela vastidão de picos cinzas: “Ela já foi para casa.”.

Um presente para o rei
Estava calor. O Rei nú sobre a bancada de mármore, aguardava que o Alto Sacerdote tratasse o seu ferimento. Sentiu uma pressão fria, e depois um fogo consumir a ferida, mas não era quente. Suportar aquela dor o fazia sentir poderoso. Sentir os nervos retesando e depois, com o coração batendo forte, subia uma agonia em forma de frêmito, que ele abafava. E depois de novo. E de novo. Abrindo e fechando a boca, enquanto revirava os olhos. Abrindo e fechando o punho. Ele se sentia capaz de aguentar qualquer coisa.
O que há com a Rainha de Harpis que não envelhece? -Essa dúvida era tanto pertinente, quanto interessante.
Bom, disse, o Alto Sacerdote,- enquanto limpava as bordas do ferimento - Podem ser muitas coisas. E talvez eu desconheça a razão. E riu de soslaio.
É um truque? - Continuou Tantalus.
Ela não é uma ilusionista de taverna, Nosso Senhor! É uma Sacerdotisa, tal como eu. Os Sacerdotes são canalizadores do poder de D'us, através da fé e das forças da natureza. Somente a Primeira Consciência, ou D'us, como preferir, pode prover a cura, o controle das circunstâncias e das forças naturais.
Você pode fazê-lo? - Perguntou, sentindo um espasmo revigorante. “Talvez”- disse o Sacerdote sorrindo.
“Então faça!” - levantou Tantalus, numa explosão, arremessando a vasilha do Sacerdote com um soco.
O sorriso de Edir secou de imediato, e pulou para trás, evitando ser atingido pelo acesso de raiva do Rei.
Se és um Sacerdote então faça. Nós somente somos algo, quando fazemos o que de nós é esperado! Se não o fazemos, somos nada. Sacerdote de nada, curador de nada. Ou Vossa Santidade é um ilusionista, afinal?- disse e ficou em silêncio em seguida. Depois bateu na bancada, e soltou um bramido, meio preso, contínuo e grave. Ficando debruçado sobre a mesa, com o rosto entre os braços, coberto pelos finos e leves cabelos loiros. Em seguida soltou outro urro, e ficou esmurrando a pedra.
O Sacerdote conhecia os acessos de raiva de Vossa Majestade, que os tinha desde muito pequeno, e via-se que sofria lutando contra aquilo. Era comum que o pai o trancasse por longos períodos em um quarto, cujos objetos ele destruía. Ficava lá por dias. Batia nas coisas, esmurrava paredes, chutava mesas e cadeiras, mordia e feria a si mesmo. Os ataques iniciaram-se após a morte da mãe. Mas pareciam mais intensos agora, depois que retornara dos Salões de Jade.
E vinham piorando.
Sua pele clara ficava muito vermelha, rapidamente. E seus olhos verdes vibrantes pareciam afundar dentro das órbitas escurecidas.
Uma sombra de preocupação vinha o atormentando. Uma suspeita passageira, de que talvez, mas somente talvez, delírios do auge da loucura de sua mãe, pudessem ter um fundo de verdade.
Edir juntou seus pertences do chão, enquanto mantinha-se um atrito tangível entre ambos.

Uma boa mira
Valéria arrastava o cerro de moedas que estavam em cima da mesa em sua direção.  Uma noite extraordinária para ela, a taverna estava cheia e todos apostaram em Marlon Mira Certa.
Acontece que, uma hora antes, Marlon havia encostado no balcão para beber uma cerveja e conversar com uma bela Amazona que lhe havia chamado com tanta simpatia para dividir o balcão. Foi muito receptiva, e embora a cerveja estivesse quente, e amarga além do de costume, ele pôde tirar uma ou duas bitocas da mulher. E quando ele começou a falar enrolado e chamá-la de Senhora Bologordo, a Amazona levantou-se e foi para um canto organizar as apostas.
E trinta escolheram Marlon, o grande arpoador de Porto de Gaivotas, ao passo que apenas dois apostaram naquela mulher estranha. Se é que de fato era uma mulher. Parecia uma criança mal alimentada, de fala empertigada, mais baixa que um anão, com um tapa-olho de um lado e careca. Dentes, tinha poucos e mal higienizados. Carregava nas costas uma sacola de couro remendada, com um símbolo, um círculos de sal com duas ondas opostas no seu centro, entre elas, uma moeda de ouro, a Marinha Mercante de Sabo.
O objetivo era simples, acertar a faca na maçã que estava na boca da cabeça de porco, há quatro corpos de distância. Eder Couraçadura, o armador do Galeão “Viúva Molhada”, havia cedido a cabeça da ceia do imediato para a competição.
Três chances. Marlon saiu do balcão trocando os pés, e quando ia caindo, os homens o jogaram de pé, com um, grande “Uou!”. Muitos gargalharam quando a pequena se aproximou, e arrastou uma cadeira, para fica na altura do alvo.
No primeiro arremesso de Marlon a faca foi parar na parede. “Uh!”, disseram os presentes, levando as mãos à cabeça. Então foram incentivá-lo cantando “Marlon, Marlon, Marlon!”. Mas a segunda faca acertou com o cabo na barriga Jüor, que segurava o porco entre os braços. No terceiro arremesso o Arpoador caiu para trás revirando os olhos.  “Não!”, disseram os presentes, acenando com a mão em desabono do marujo embriagado.
E quando Valéria pegou a faca, que parecia uma espada curta para ela. Todos deram gargalhadas. “Olha só! Arrárrá! Um pirralho com uma faca!”,- e rolaram sobre as mesas com a mão na barriga, torcendo-se de tanto rir. Uns cuspiram a cerveja, afogados, enquanto rolavam por cima das cadeiras.
A pequena se concentrou, balançou o corpo para frente e para trás, mirou um pouco e vum, no primeiro arremesso acertou o chapéu de Jüor, o prendendo na parede. O que fez os apostadores abrirem a boca, rindo, fazendo voar migalhas de batata para todos os lados.
O terceiro lançamento foi preciso, bem na maçã!
Ao que todos viraram de imediato, desdenhando a marinheira e dizendo “Sorte de principiante!” e “Marmelada!”, enquanto ela descia sorrindo da cadeira. Antes de recolher o prêmio, catou uma caneca de cerveja que estava por ali, e que era maior que a sua cabeça, virando em um só gole. Depois limpou a boca com a manga e foi pulando, feito uma criança, enquanto abria sua sacola de couro.
Valda, - cochichou para a Amazona- você deve pôr menos pós-de-ronco na cerveja! Já é a terceira vez que derruba o oponente, daqui a pouco vão acabar nos pegando de vez!  -a pequena ia derrubando as moedas dentro da sacola. E puxou o cordão bem firme, para que nada escapasse.
Vamos embora daqui, antes que alguém se sinta injustiçado. Aqui é Porto de Gaivotas, dentro de pouco tempo todos esses homens com berbigões na barba e ranço de baleia na cavada estarão brigando dentro dessa taverna.
As duas saíram discretamente, e saltaram na viela escura. Uma taverna à beira da doca não é lá um lugar bem frequentado, e em Porto de Gaivotas os tipos mais estranhos são encontrados. Se é necessário fugir da lei, um barco em alto mar por dois à três anos é uma ótima opção. E esses eram os tipos que frequentavam o porto: ladrões, assassinos, homens culpados e espiadores de pecados. Todos ali reunidos, na missão mais fedorenta do continente: a de espetar, carnear, e escorregar óleo daquelas pobres baleias.
Aconteceu o que era bem provável. Elas estavam sendo seguidas.
Apertaram o passo, e o perseguidor também.
Mas elas já haviam passado por essa situação, muitas e muitas vezes, já tendo várias jogadas ensaiadas para acabar com esse tipo comum. Valéria apontou um “v”, com os dedos, Valda já sabia o que fazer na mesma hora. Era a tática: “vamos nos separar. Aguardar quem será seguida. A outra vai atrás e fura o homem pelas costas.”, que elas chamavam de “Surpresa no rim!”.
Valéria entrou num beco, molhado e cheio de poças. O homem encapuzado veio atrás. Valda escorregou por entre as sombras, furtivamente, com a adaga em riste.
As poças fumegavam e o chão de pedra, era escorregadio. Maldito sal, pensou Valda. E o homem parou no meio do caminho: Valda e Valéria!- e jogou as mãos para cima- A dupla mais sorrateira, perigosa e mentirosa da banda oriental.
E Valda saiu das sombras, com um largo sorriso no rosto: E se não é Paisano, o capacho do Mestre das Facas! O porco miserável mais estranho que já conheci!
Valéria correu e se jogou sobre os dois, com um largo sorriso e algumas lágrimas nos olhos.

E os três saíram rindo do beco, como grandes amigos que se reencontram depois de um tempo distantes.


Continua.....