21 de dezembro de 2011

Ângelo

Sai do carro como quem deixa uma vida para tráz. Veste o jaleco como quem coloca uma armadura. Trabalha como quem não tem outra vida, exceto aquela que ficou no carro, lhe esperando.

Quando criança pensava em ser médico e brincava pedindo aos pacientes para dizerem “trinta e três”. Lembrando da brincadeira sorriu brevemente para si mesmo e pediu que Mônica respirasse fundo e segurasse o ar em seus pulmões. Auscutou o peito da jovem, em seguida seus pulmões. O ar deixou a cavidade peitoral da moça com força, prostrando-lhe as costas. Uma apreensão estampava a face dela, uma vez que apenas os médicos podem dizer se você está bem ou estárá morto em breves minutos. “Nada de mais” pensou ele. Pulmões limpos “Um resfriado”.

O doutor lavou as mãos muitas vezes e ao final da tarde, retirou a armadura e retornou para o carro. Caiu-lhe uma máscara de cinza, sobressalente na rosto. Ainda pensou no trinta e três antes de ligar a ignição, o que lhe iluminou rapidamente os olhos. Era uma lembrança.

Pegou o telefone, beijou, dirigiu.

19 de dezembro de 2011

Marialva

Marialva repousou seus dedos finos e delicados sobre o telefone. Chorava sem e soluçava(as lágrimas vertiam, porque se Marialva as vertesse ela teria um porquê em fazê-lo, e nesta altura, onde as lágrimas já deveriam ter-se findo, nenhum porquê remanescia). Enquanto chorava um mar de remorso, um cigarro queimava entre os dedos. O braço pendia para fora da mesa, enquanto ela observava a imagem embaçada de uma fumaça dançando no ar.

Quando não há vento, sequer brisa, não se percebe a fumaça dançar. Ela apenas sobe e vai. Para o teto, talvez. Procurando uma janela ou se dissipa, simplismente. Quando há movimento por perto a fumaça drapeja. Toma rumo diverso do que pretendia quando o ar se desloca para deixar outro corpo passar.

Marialva estava inerte.

Uma voz esbravejou ao fundo, como se fosse, ao longe.

Alguém saiu pela porta, batendo-a com força, empurrando muito ar para dentro daquele cômodo. Este foi o único alvoroço movimento no ar do quarto, naquela manhã.

16 de dezembro de 2011

Mãe

És manhã e tarde de sol no limite dos meus confins;
És sonho e canção de ninar nos meus clarões;
Ternura e calor, o teu colo de mãe
Eu vim de ti,
Sou parte de nós.

Se faz um riso de choro
Quando Estou anos-luz,
Então somos um só
Quando estamos bem,
E quando estamos assim,
É canção despedaçada
Mas nunca um refrão.

Amar é viver
É piscar mais rápido para ver.
Teus olhos são espelhos da constelação!
São assim, as nuvens azuis.

Amar é viver
É piscar mais rápido para ver
Teus olhos são lírios de paz
Que ao fitar se retém a luz.

Pequena joia,
quando fechares os olhos
Fiques com a paz
Que eu fico aqui.

Teu brilho brincará no meu carrocel
Teu céu,
Meu céu,
Nossos anos-luz

Nos dias estarás
E nas noites também
Embalando este verso nos teus braços,
Trançando claridade no teu cabelo de luz.
És manhã e tarde de sol no limite dos meus confins;
És sonho e canção de ninar nos meus clarões.

Jaque Machado