30 de dezembro de 2010

O pescador

Eu bati na porta de um homem e ele abriu.
Um cheiro forte de fumo habitava as paredes, a mobília simples. Habitava a boca do homem de dentes amarelados e cabelo ralo. Trazia no ombro a camiseta do time e no peito o calor, a umidade da cidade, a cor que o sol lhe infringia no trabalho diário da pesca.
A pele da nuca dividia-se em inúmeros losangos. Era rachada como o solo que meses à fio dorme sob o olho pungente do sol e acorda por ele fulminado. Imaginar sua idade deveria levar em conta que sobre ele o tempo não agira tanto quanto a dureza do trabalho. Mãos fortes e grosseiras seguravam o palheiro. Braços repletos de múesculos latentes. Um homem de constituição forte e jovial, porém com rosto sofrido e envelhecido, em cujo semblante descansava a serenidade cinza dos homens do mar.
Sob o reflexo tenaz das luzes matutinas que incidiam no rio, o homem deixava a casa na terra e passava à casa mar.
Depois disto nunca mais o vi.

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